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A palavra arquétipo deriva de archetype que significa tipo original ou modelo primitivo. Carl Gustav Jung (1875-1961) utilizou o termo como sendo o modelo básico do comportamento instintivo, ou ainda como um modo do comportamento psíquico. Eles, os arquétipos, fazem parte da estrutura psíquica, sendo elementos determinantes coletivos do comportamento humano, constituindo-se em tendências comuns. Portanto, nossos comportamentos são regidos pelos arquétipos. Podemos percebê-los indiretamente nos mitos, contos de fadas e, principalmente, nos sonhos.
Seu uso na Psicologia se deve a Jung, que o fez inicialmente no Século XX, aplicando-o apropriadamente em toda a sua obra. Porém podemos encontrar o termo muito antes de Jung tê-lo feito, em O Livro dos Espíritos. Na questão 1009, que trata do tempo das penas impostas aos espíritos, encontraremos uma resposta-mensagem, dada por Paulo, o apóstolo, que afirma o erro de se acreditar no inferno, dizendo o seguinte, num de seus parágrafos: “Quem é, com efeito, o culpado? É aquele que, por um desvio, por um falso movimento da alma, se afasta do objetivo da criação, que consiste no culto harmonioso do belo, do bem, idealizados pelo arquétipo humano, pelo Homem-Deus, por Jesus Cristo.”
O termo, portanto já era utilizado, pelo menos pelos espíritos de escol, como Paulo, apóstolo, no mesmo sentido que Jung veio mais tarde a tornar comum. Isso é mais uma das antecipações que se podem encontrar nos livros básicos do espiritismo. Tais obras, quando bem estudadas, sem espírito de sectarismo, contextualizadas, revelam aspectos profundos da sabedoria universal.
O que quero chamar a atenção diz respeito a outro tema. Trata-se da concepção do apóstolo. Ele coloca Jesus como sendo o arquétipo do ser humano. Isso pode nos levar a entender que, para ele, o culto ao bem, ao belo e harmonioso, objetivo da Criação, vivido pelo Cristo é uma representação estrutural da psiquê humana. Daí se depreende que, na base da estrutura psíquica humana existe uma imagem correspondente que foi projetada em Jesus.
Entenda-se estrutura psíquica como um órgão do perispírito. Não deve ser confundido com o cérebro, tão pouco com o Espírito. A psiquê humana é um aparelho fundamental ao Espírito em sua evolução, construído desde os primórdios dela. Ela se apóia no sistema nervoso enquanto o espírito está encarnado.
Projetamos em Jesus, bem como em outros ícones religiosos, algo que se encontra na estrutura psíquica de todo ser humano. Assim também fazem o budista com Buda e o muçulmano com Maomé. Há uma intencionalidade nisso. É por causa daquele arquétipo que as religiões existem, cujo colorido específico é dado pela diversidade dos indivíduos. As culturas, nas diversas regiões do planeta, fizeram com que as projeções recaíssem sobre indivíduos distintos, nascendo as diferentes religiões.
Há uma função religiosa no psiquismo humano que nos leva aos mesmos intentos: busca do significado da vida, busca de um sentido para a própria existência e o encontro com o Divino ou Sagrado. A prática religiosa, em si mesma, não leva o indivíduo a encontrar aquilo que a função o direciona. Por ser o arquétipo uma tendência coletiva, cada indivíduo fará sua própria caminhada, contando com as mais diferentes experiências, para chegar ao sentido e significado daquele misterioso encontro.
Quando se diviniza a pessoa de Jesus, aproxima-se do arquétipo. Isso distancia o indivíduo de si mesmo. Quanto mais próximo da tendência coletiva, mas longe da essência espiritual do ser. Isso é perigoso, por afastar o indivíduo daquele encontro. Corresponde à adoração dos primitivos ao trovão ou ao totem.
Jesus foi um homem judeu que viveu sua época e seu tempo. Sua personalidade era a encarnação de um espírito superior que veio com uma importante missão. Trouxe belos e superiores ensinamentos. Viveu sua vida da forma e maneira que lhe foi adequada. Imitá-lo, mesmo que em gestos e palavras, pode se tornar um arremedo de vida. Porém, seguir seus ensinamentos, de acordo com a época e com as experiências individuais de cada um, cuidando para não se tornar unicamente um sacerdote, pode ser estruturante. O arquétipo que condiciona a função religiosa é muito poderoso, requerendo discernimento para não inflacionar a consciência. Toda polarização, quer religiosa ou não, torna-se um desvio da verdadeira singularidade humana.
Buscar Jesus não deve ser um fim em si, mas um meio para compreensão da função religiosa da psiquê, em vistas ao encontro com o Divino. A religião deve se constituir num campo de expressão da função religiosa para a vivência de experiências atualizadoras da vida. Ela não deve limitar o Espírito, mas auxiliá-lo a encontrar-se a si mesmo.
O Espiritismo trata da origem e natureza dos espíritos e de sua situação após a morte. Na realidade isso significa a compreensão do ser humano em sua evolução. Traz assuntos e ensinamentos que levam a uma maior compreensão da vida, do destino e de seu significado. Ele é um dos campos no qual a função religiosa pode ser expressa e onde experiências podem atualizar a compreensão do sentido e significado da vida.
O arquétipo humano, Jesus, no Espiritismo, não é um modelo estático a ser seguido, mas um exemplo vivo de quem conseguiu servir de projeção do Self de cada ser humano que o encontrou.
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