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Sempre acreditei que o Mundo Espiritual fosse cópia melhorada da Terra. Baseava-me numa afirmação de Allan Kardec, num comentário à resposta da questão 266, de O Livro dos Espíritos. Ali ele coloca que a vida humana seria cópia da vida espiritual. Porém, ele se refere apenas à necessidade de vencer provas, iniciando-se pelas menores visando atingir objetivos maiores. É importante salientar que o comentário se refere a uma ampliação de um aspecto da vida espiritual. Ele não alcança a totalidade da realidade do espírito após a morte.
Eu acreditava que a vida do espírito fosse mais ou menos parecida com o que vivemos aqui na Terra. Era como se quisesse que as coisas fossem semelhantes, a fim de me tranqüilizar quanto ao meu destino. Ter uma família espiritual, uma possibilidade de ocupação semelhante à daqui, reencontrar amigos e afetos, tudo isso era uma garantia adicional ao fato de ser espírita e de exercitar a caridade. Tudo isso é real, porém não é a totalidade da vida espiritual. Não percebia que, pensando exclusivamente daquela forma, projetava aspirações infantis numa parte da realidade presumida.
Isso limitava minha visão a respeito da vida espiritual, do universo e da questão central da mente humana: Deus. Pensar como o fazia, restringia minha intuição, bem como desencadeava uma série de crenças menores, que acabavam por se assemelhar à idéia da existência do céu e do inferno. Só me dei conta do engano quando me debrucei sobre os questionamentos suscitados pela física quântica. Pude perceber que a complexidade da matéria e a existências de múltiplas dimensões existenciais, obrigavam-me a ampliar meus conceitos sobre a vida espiritual.
Comecei a perceber, ao ler algumas mensagens psicografadas que continham informações menos impregnadas de conteúdos semelhantes aos modos de viver da Terra, mostrando peculiaridades exclusivamente pertencentes a outro tipo de sociedade. Espíritos que se apresentam em aparências não convencionais, relacionamentos alternativos, habitações não padronizadas, atitudes fora do eixo missão x socorro espiritual, exposições de encarnações fora do binômio dívida x resgate, dentre outros modos, são exemplos que merecem reflexão.
Até que ponto estamos condicionados a pensar a vida espiritual dentro dos padrões terrenos, limitando a percepção do espírito encarnado a respeito de si mesmo? Pensar de forma livre, independentemente das condições padronizados não seria libertador, ampliando as capacidades criativas? As pessoas não seriam menos alienadas e mais conscientes de que são espíritos imortais? Penso que devemos ser mais abertos ao novo, em se tratando da vida espiritual.
A sociedade apresentada nas psicografias geralmente revela pessoas com comportamentos idealizados e, algumas vezes, utópicos. Mesmo os que se apresentam em atitudes equivocadas, são caricaturas de pessoas, cujo comportamento se restringe ao que se pretende mostrar do personagem, sem a possibilidade de revelarem algo mais do que faziam quando encarnados. Os espíritos desencarnados são mais do que os personagens enquadrados em categorias, de acordo com seus graus de evolução. São personalidades complexas, muitas vezes com características inimagináveis aos encarnados, em face da diversidade de existências pregressas que tiveram.
A sociedade espiritual constituída por espíritos espíritas pode ser padronizada e utopicamente constituída, porém, há uma mais abrangente, que contém os demais espíritos desencarnados, ainda vinculados ao planeta Terra, que suponha seja de uma diversidade incalculável.
Isso não significa que a percepção da vida espiritual como sendo um modelo melhorado da vida humana esteja equivocada. Significa que é parcial e que se refere um determinado tipo de sociedade espiritual.
A realidade da vida fora da carne é mais ampla, complexa e diversa do que imaginamos. Abrir a mente para uma percepção e entendimento mais aberto, amplo e complexo pode se tornar útil àqueles que limitam e pautam suas vidas por regras e normas alienadoras. O espiritismo, enquanto religião que apresenta a vida espiritual, os espíritos e suas relações com o mundo material, não deve se limitar a ensinar parcialidades.
O retorno do espírito encarnado à vida espiritual, sua verdadeira origem, deve ser precedido de certos condicionamentos quanto ao que viverá. Deve-se
Médiuns, escritores e oradores devem evitar se limitarem a mensagens estritamente de auto-ajuda e de mudança de comportamento social. Devem ampliar seus horizontes para prospecção do que não é dito, falado ou escrito, por encarnados ou desencarnados, buscando penetrar mais fundo nas leis que regem a vida material e espiritual. Tudo leva a crer que estamos vivendo um período em que o Espírito deseja se libertar de formas alienantes de viver e entender a realidade do universo a sua volta.
Observo que, a partir do final do século passado houve uma mudança nas mensagens psicografadas, bem como no conteúdo dos livros de autores encarnados. Pode-se observar que há um incentivo maior ao processo de autoconhecimento e de autotransformação. Parece que todos resolveram colocar a psicologia no espiritismo. Creio que isso é útil, pois não se pode desprezar a mente e a personalidade na evolução do espírito. Porém, isso pode ser um viés prejudicial, caso não se aprofundem nos temas apresentados. Vejo leigos falando e escrevendo sobre psicologia, porém de forma superficial, bem como espíritos, através de médiuns sem conhecimento profundo da ciência do comportamento e da psiquê, apresentarem o óbvio. Na maioria das vezes tentando mostrar que o indivíduo deve se transformar, mas não o aconselham a que vivam as experiências comuns da vida material. Pregam uma psicologia do transcender sem o experimentar.
Psicologia não é auto-ajuda nem espiritismo é transformação sem vivência real na carne.
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