| O Fogo Sagrado |
|
|
|
Conta a mitologia grega que, no princípio de tudo, Crono reinava soberano sobre deuses, homens e animais. Com receio de perder seu poder, decidiu engolir os filhos. Suspeitando da artimanha do marido, Réia, resolveu esconder um dos filhos, Zeus, a quem incentivou a destronar o pai. Contando com a ajuda de Prometeu, seu primo, que tomou por empréstimo o raio dos Ciclopes, Zeus se insurge contra o pai, assumindo o comando do Olimpo. Zeus, que não gostava dos homens, pois eram da geração anterior a ele, resolveu deixá-los sem comer. Condoído dos homens, tornando-se seu defensor, Prometeu ofereceu a Zeus a escolha da metade de um boi sacrificado. Prometeu dividiu o boi em duas partes, sendo a primeira constituída da carne coberta com o couro, e a segunda, os ossos encobertos com toucinho. Percebendo-se enganado ao escolher o toucinho, Zeus resolveu retirar o fogo dos homens para que não conseguissem se alimentar. Prometeu, em contrapartida, rouba o fogo de Zeus e o leva para que os homens voltassem a se alimentar. Quando Zeus descobriu, sua ira se voltou também contra Prometeu. Para os homens, Zeus mandou Hefesto, o deus coxo, fabricar uma bela mulher, misto do melhor das deusas do Olimpo, de nome Pandora. Entregou-lhe uma caixa com todos os males do mundo para ser entregue aos homens. Quando aberta, a caixa espalhou-os pela humanidade. Contra Prometeu, acorrentou-o no Cáucaso, condenando-o a sofrer indefinidamente. De dia, uma das águias de Zeus comia-lhe o fígado, que se regenerava à noite, além de passar dez mil anos mergulhado nas águas. Ele só poderia ser libertado se outro deus lhe tomasse o lugar e se ele revelasse quem o poderia destronar. Quíron, pai da Medicina, curador ferido pela flecha de Héracles, oferece-se em seu lugar, ouvindo-lhe o segredo, que é revelado a Zeus. Prometeu é, então, libertado.
O mito é uma representação arquetípica da psiquê coletiva. O mito de Prometeu simboliza a saga do ser humano em busca da consciência de si mesmo. É o Espírito imortal que ainda se percebe acorrentado à espera de alforria. Sua luta tem como motivo a defesa da própria condição humana. Zeus representa o poder superior, por ele mesmo outorgado, que lhe condiciona a vida, não lhe dando autonomia, bem como punindo-o pelo uso de seu livre-arbítrio. Sua libertação decorre da consciência de que todo processo de cura se inicia pelo próprio indivíduo. Vale destacar no mito a função do fogo. Graças a ele Zeus destrona o pai, renovando o Olimpo, tanto quanto Prometeu promove a continuidade da vida humana. Tal fogo simboliza o poder humano, a energia interior, o maná divino, a capacidade de superação e de motivação humana. É a energia psíquica que move o desejo humano para a realização e que o faz renascer a cada momento. É ela que o mantém alimentado e eternamente vivo. É ele que nos deve conduzir à redução do poder que nós próprios atribuímos ao Plano Superior para que resolva nossos problemas. Muitas vezes, transferimos aos espíritos desencarnados a solução de conflitos cuja responsabilidade nos pertence. É seu não uso, ou desvio, que provoca a doença conhecida pelo nome de depressão. Deprime-se quem não direciona aquela energia para a solução do conflito que teme. Ela proporciona as expressões criativas humanas e dirige a vida para as realizações concretas. Essa energia liberta o ser humano da opressão paradoxalmente promovida pela sua própria crença num poder superior solucionador de todos os seus conflitos. A libertação de Prometeu requer alguns requisitos. Ele é liberto por Quíron, o curador ferido, e só depois de confessar o segredo. Isso significa que o ser humano para se libertar das amarras que ele mesmo constrói para si, necessita estar de posse de certas condições psicológicas. A primeira é considerar-se curador, dotado da energia da cura capaz de eliminar todos os males que ocorrem consigo. Se o mal decorre da experiência humana, sua erradicação também deve ser por ele eliciada. A segunda, enxergar sua própria ferida, isto é, sua sombra. Isso significa não mais projetar seus males no outro. Todos devemos nos perceber curadores feridos, a fim de que não nos sintamos melhores ou necessitemos nos achar perfeitos para viver as experiências humanas. Descobrir a própria ferida nos levará à humildade e à certeza de que a caridade ao próximo é uma atitude que exige que nos sintamos em pé de igualdade com o necessitado. De fato, somos todos mendigos em algum nível. O segredo a ser revelado por Prometeu, representa a confissão que todos devemos fazer, no que diz respeito aos nossos próprios males. Não seguir a vida com o peso de culpas, de arrependimentos ou de sentimentos inconfessáveis. A vida pede que nos sintamos livres e libertos de pensamentos e sentimentos opressores. Abrir-se para o outro, expor-se autenticamente e fazer brilhar a própria luz devem ser atitudes constantes de todos que se conscientizaram de sua responsabilidade na própria evolução. O fogo divino, sagrado e permanente é presente de Deus para a criatura humana, que compete utilizar constantemente. É com ele que a vida se realiza. Prometeu teve a coragem de desafiar os deuses, de atravessar as agruras da vida, bem como a capacidade de superar e vencer, tornando-se livre e autodeterminado. Seu fogo é seu alimento e sua energia para a vida. Somos todos espíritos imortais, livres para escolher, desde que nos conscientizemos devidamente dos nossos deveres. A vida condena a ignorância e a tibieza. Não cabe mais ao cristão, muito menos ao espírita, permanecer tímido e retraído diante da vida que o convida ao uso do fogo de que é portador. A vide nos exige uma certa dose de risco e de disposição para mudar. Mudar a própria personalidade, o mundo à sua volta e, principalmente, suas atitudes em relação a ele. Usar o fogo sagrado é fundamental para o espírito prosseguir sua jornada evolutiva. E-mail: Este endereço de e-mail está protegido contra SpamBots. Você precisa ter o JavaScript habilitado para vê-lo. |