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O Espiritismo prega a reforma íntima como meta quase absoluta a ser alcançada a partir da prática de seus postulados. A palavra reforma implica em alteração da estrutura de algo visando sua melhoria ou aprimoramento. Reforma-se o que já existe e que se apresenta de forma inadequada ou ultrapassada, objetivando uma nova apresentação. Quando se trata do Espírito, reforma é sinônimo de educação do ser, visando o alcance do máximo para o qual foi criado.
A importância da reforma íntima, como processo de educação do ser espiritual, é muito grande, pela magnitude de sua proposta. Porém, não se trata do único objetivo do Espiritismo, enquanto Conhecimento. Em que pese a grande importância da reforma íntima, não é só esse o objetivo do espiritismo. É claro que existe algo mais além.
O ser humano é uma individualidade que se estrutura na coletividade, portanto não é um ser isolado, nem pode se afirmar sem a convivência social. É um ser individualizado e, simultaneamente, coletivo. Dada essa condição de ser coletivo, a reforma deve abranger essa condição, que implica em sua participação na sociedade. A reforma passa pela vivência consigo mesmo, com o mais próximo de si e como cidadão. A reforma como cidadão implica na busca da “realização melhor e mais completa das qualidades coletivas do ser humano”.
Nesse sentido, a reforma íntima tem duplo sentido: um interno, na direção do próprio indivíduo, e outro externo, na sua vida social. É fundamental que ambas ocorram simultaneamente. Na interna, o aprimoramento das qualidades e a integração dos aspectos negativos da personalidade, é o grande trabalho a ser feito. Na externa, a participação na vida coletiva e o cumprimento dos deveres sociais são decisivos para a não alienação do indivíduo.
Na intimidade da reforma encontraremos mais do que tornar-se uma pessoa educada ou polida com o verniz social que manda a todos tratar bem. O processo exige viver experiências que antes seriam consideradas negativas ou inferiores. Não se pode fugir do que se tem interiormente pulsando, exigindo ação. Na intimidade da reforma é necessário enxergar quem é o sujeito da ação, identificando suas peculiaridades inatas, bem como as características de sua personalidade. Cada pessoa se encontra num degrau próprio, portanto não se pode exigir das pessoas o mesmo. Cada ser humano se encontra em seu degrau próprio da evolução.
Por outro lado, não participar da vida coletiva, nem atender as obrigações de cidadão, sob pretexto de que as coisas do espírito são mais importantes, é alienar-se de sua parte coletiva, em prejuízo de si mesmo. A vida coletiva exige engajamento e convivência além dos muros familiares, considerando que há uma grande família da qual fazemos parte. A realização da melhor e mais completa das qualidades coletivas implica em contribuir para o desenvolvimento material e espiritual da sociedade, como importante lócus no qual o espírito se insere.
Sob pretexto de evolução espiritual, não se pode descurar da construção da própria cidadania. A vida na Terra é tão importante para o espírito quanto em outras dimensões. Enquanto na Terra, o ser humano deve buscar, além do trabalho no campo espiritual, a construção de sua cidadania. Tal construção implica em: buscar aprimorar-se intelectualmente, dedicando-se ao estudo formal, preferencialmente alcançando um curso superior; dedicar-se a uma profissão que contribua para a realização de suas habilidades internas e inclinações pessoais; buscar independência financeira para não sobrecarregar alguém injustamente com sua própria manutenção; ter equilíbrio financeiro, cuidando para não se tornar um cidadão inadimplente; cumprir suas obrigações legais, atendendo às exigências dos estatutos sociais; contribuir para o aprimoramento das regras coletivas de convivência social; estar atento à necessidade de transcender e de ampliar os horizontes materiais e espirituais a que está submetido.
A construção da cidadania é tão importante quanto a estruturação de um mundo interior rico e harmonizado consigo mesmo. Possui uma personalidade madura quem encontrou o equilíbrio entre o interno e o externo. A visão de que o espírita é alguém antenado com o espiritual, conhecedor das letras do Evangelho e desligado da vida material pertence ao passado, no qual as pessoas eram medidas pelo seu grau de desprendimento das circunstâncias materiais. Não há reforma íntima sem íntimo contato com a sociedade.
Qual então seria a intimidade da reforma? Certamente é um processo que pressupõe a estruturação de uma personalidade madura e harmonizada consigo mesmo e com a sociedade. Nela, a consciência de ser espírito imortal, bem como a certeza de um destino pessoal auto-construído são fundamentais.
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