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Octávio Caúmo Serrano

É comum pessoas discordarem da abordagem do espírita em artigo de revista, jornal ou mesmo em uma palestra. Evidentemente, é preciso que haja coerência doutrinária nos conceitos exarados, sem o que a matéria desde logo fica invalidada. Isso é menos preocupante porque os veículos não liberam para publicação o que não está consonante com os princípios difundidos por Allan Kardec.

Devemos considerar, porém, que o Espiritismo tem uma faceta filosófica e, portanto, é normal que sofra diferentes interpretações. No próprio O Livro dos Espíritos há comentários que dizem faltar-nos atributos para entender certos pontos da mensagem. Os Espíritos nos deixam à vontade para discutirmos, pois não temos uma palavra para cada ideia.

Observemos logo na pergunta número 3 de O Livro dos Espíritos: quando perguntado “Pode-se dizer que Deus é infinito”, os Superiores responderam que é uma “definição incompleta. Pobreza de linguagem humana, insuficiente para definir o que está além da sua inteligência”. Complementam afirmando que seria “definir uma coisa ainda não conhecida por outra que também não o é”. Encontramos tais argumentos diferentes vezes ao longo do livro, como por exemplo na questão 158, a respeito do desencarne.

No item II da introdução, Kardec fala sobre a alma, que tem sido alvo de inúmeras controvérsias. Diz ele que se houvesse uma língua perfeita, na qual cada palavra tivesse sua representação por um termo próprio, não teríamos muitas discussões. Com uma palavra para cada coisa todos se entenderiam. E segue dando diferentes definições de alma, segundo os mais variados entendimentos.

No movimento espírita, para citar outro exemplo, há uma corrente que não aceita Jesus como filho biológico de José e Maria; atribui-lhe um corpo fluídico. Ou como defendem os irmãos católicos, Ele seria filho do Espírito Santo. Jesus teria sido, portanto, um agênere (segundo os espíritas, aparição tangível em que o espírito assume a forma de pessoas vivas que só têm da matéria carnal as aparências).

Muitos dos que assim pensam são espíritas cultos, da cúpula do nosso movimento, e que têm o direito de pensar como lhes induz o sentido. Para nós parece sem sentido, porque então o flagelo do Calvário seria uma farsa igual à encenação que a igreja promove a cada semana santa. Jesus teria enganado a humanidade porque não teria sentido as dores que até hoje faz os homens chorarem por Ele.

O casamento de Maria com José seria outra burla, porque se ela não precisava de varão para fecundá-la, o Espírito Santo podia gerar Jesus sem que ela tivesse marido. Ou foi mais uma trama do Plano Superior para salvar as aparências e evitar mexericos?!

Como Jesus disse que veio dar cumprimento à Lei, não tinha sentido que ele nascesse de forma diferente de nós. Um corpo menos denso, vá lá. Dependente de alimentação mais leve, claro. Quanto mais evoluímos menos dependemos de comidas grosseiras e pesadas. Jesus já podia alimentar-se até mesmo do fluido cósmico. Observe-se que os Evangelistas são omissos quanto ao tipo de alimentação de Jesus. Apenas dizem que ia ao horto refazer-se. Se eles defendem que o corpo de Jesus era fluídico, nós podemos afirmar que era de carne mesmo. Desses pontos de vista é que resultam as inúmeras correntes filosóficas que há na Terra e nas quais sempre existe alguma verdade e alguma fantasia. Difícil é separar as duas coisas.

O Espiritismo é uma doutrina que ainda depende da interpretação do estudioso conforme o seu entendimento. Por isso Kardec disse que se gastamos muitos anos para ser profissionais medíocres em diversas áreas humanas, quanto tempo não gastaremos até aprender a ciência do infinito! Nesse curso estamos ainda no jardim da infância.

Observemos que depois da codificação tivemos muitas revelações novas. As inúmeras comunicações dos espíritos nestes cento e cinquenta e dois anos fizeram-nos mudar muitos conceitos. No início tudo parecia fatal. Desde a união dos casais, filhos, profissões, resgates inalteráveis, até que fomos aprendendo que o livre arbítrio nos permite mudar o que parecia definitivo. E ainda estamos aprendendo. Se os carmas físicos geralmente são imutáveis e perduram por toda a encarnação, os de ordem moral e social podem ser modificados pelo nosso esforço. Quem nasce rico pode ficar pobre e quem nasce pobre pode ficar rico! Vai depender do seu comportamento diante da vida.

Ninguém pense em dar aulas de espiritualidade como um pós graduado em Espiritismo. O que já aprendemos de forma definitiva, e não será modificado, é que: “Fora da caridade não há salvação”. Quem espalhar na vida a solidariedade e o respeito, suavizando as penas do semelhante de todas as formas que puder, e for fiel consigo mesmo, não precisará se preocupar com seu futuro espiritual; na Terra ou na erraticidade.

É preciso estudar muito e sempre, mas sem a pretensão de ser um sabichão porque podemos ser desmentidos pelas verdades que nascem a cada dia. Já disseram que a Terra era achatada, depois que era redonda e centro do universo e, finalmente, que gira em volta do Sol. Quantos séculos separam cada um desses conceitos. Quanta gente foi agredida e quantos se desmoralizaram desmascarados em seus postulados. E a última palavra ainda não foi dita!
Inspiremo-nos na modéstia dos sábios que afirmam: quanto mais sei, mais tenho a certeza de que nada sei.
Feliz 2010!

Revista RIE - Janeiro de 2010
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