Caridade e disciplina Imprimir E-mail
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Octávio Caúmo Serrano

Certa amiga nos enviou uma mensagem espalhada pela internet, originária de Vitória-ES, com comentários sobre o rigor das casas espíritas. O texto é da presidente de um Centro que é também assistente social.

Como se trata de uma lauda com mais de cento e trinta linhas, não podemos reproduzi-la integralmente. Mas destacaremos alguns tópicos, para análise. Diz ela:

“Após comentário de uma vizinha quanto à minha dedicação ao centro, decidi pensar no assunto e pergunto: Até onde nós, espíritas, estaremos descambando para o igrejismo e a superficialidade? Temos visto Grupos tão obsecados com assiduidade e pontualidade, tão cheios de regras, critérios, exigências e uma intolerância tal que mais parecem a velha e inquisitorial igreja romana da idade média do que oficinas fraternas de estudo e vivência do Evangelho de Jesus.”

“Afinal”, prossegue ela, “Emmanuel recomendou: “Disciplina, disciplina, disciplina.” Foi o bastante para que instruções superiores, aplicadas a um contexto específico, se tornassem o jargão justificador da inflexibilidade fria que campeia em nosso meio e que vem transformando nossas instituições - destinadas a ser escolas do amor - em verdadeiros quartéis de controle e enquadramento. E quantos exageros em nome da disciplina...”

“É preocupante, também, a falta de naturalidade com que as pessoas têm se comportado no ambiente espírita. Observa-se uma despersonalização e um formalismo alarmantes, em lugar da camaradagem espontânea que deveria existir entre irmãos.

Não raro, rir e brincar inter-reuniões parece ser, implícita ou explicitamente, proibido:-quebra a vibração.”

Como dissemos, muitos outros comentários constam da mensagem, uns com algum sentido e outros confundindo disciplina com falta de amor.

Quando dizemos que os católicos e evangélicos não precisam se preocupar em destruir o Espiritismo porque os espíritas já se encarregaram dessa tarefa, dizem que exageramos. Mas ao ler o texto da “confreira”, confirmamos nosso ponto de vista. Imaginamos como será o ambiente no Centro que ela preside!

Seguindo o raciocínio dessa irmã, não temos que disciplinar nosso filho. Se ele quer estudar, que estude, se quer brincar, que brinque; se quer dormir, durma, se prefere passar a noite no computador, que passe; se quer se alimentar, que coma, se não quiser que fique com fome. Afinal, nossos filhos têm livre arbítrio e a disciplina é castradora; é falta de amor! Por isso os encontros nunca começam no horário: lançamento de livros, simpósios, congressos e qualquer solenidade sempre atrasam hora ou mais. Até casamento; é charmoso a noiva atrasar, dizem. Nós dizemos que é falta de respeito e educação com os convidados e com o celebrante. Mas quem nos ouve?
A natureza nos dá exemplos de disciplina. Laranjeira dá laranja e limoeiro dá limão. No tempo certo e podemos plantar conhecendo a hora de colher. Não faz cada planta de acordo com a sua vontade.

A criança nasce normalmente depois de nove luas após a concepção. A mãe pode preparar o berço e o enxoval. Se uma criança nascesse depois de um ano, outra de dois e a terceira depois de um mês, como planejar.

Se um palestrante que tem compromisso para as 20 horas chegar no Centro às 20h15 vai tumultuar a reunião. Se o público em vez de vir no horário marcado para o início for chegando cada um ao seu bel prazer, vira bagunça. Assim como ninguém atrasa para pegar avião ou chegar no trabalho, não deve atrasar-se para a reunião espírita. Há uma generalizada falta de educação quanto ao cumprimento de horário em nosso país, uma indisciplina quanto a comportamento, e ainda temos o endosso de uma presidente de Centro Espírita que defende o direito de rir, de brincar e de flautear nos compromissos com o Espiritismo. Um clube de lazer espírita, é o que ela pretende que seja cada Centro.
Não temos dúvidas que a fraternidade anda meio em falta; nem que a responsabilidade está meio fora de moda; também não ignoramos a pretensão de certos dirigentes espíritas de comandar a sua “paróquia” nos mesmos moldes autoritários de quando eram os velhos sacerdotes. Todavia, são exceções que precisam ser combatidas. Mas desprezar a disciplina em nome da caridade é um dos maiores equívocos que cometemos. Libertinagem nunca foi sinônimo de amor!

O Centro existe para educar a sociedade a partir das coisas mais simples. Respeito ao próximo pelo cumprimento da palavra empenhada, assiduidade e pontualidade nos compromissos assumidos e comportamento discreto e comedido para não perturbar os demais.

Tais recomendações não devem ser observadas apenas no Centro Espírita, mas também nas escolas, nas ruas, nas empresas e nos lares. Mas se não é possível corrigir o mundo leigo de chofre, que pelo menos não percamos a oportunidade que temos com as reuniões espíritas para ajudar na educação das pessoas.

Neste mês de Carnaval, quando a bagunça é total, este artigo cai sob medida.

Se algum leitor tiver interesse no texto que deu origem a este comentário, mande-nos email que o enviaremos na íntegra.

Quantos equívocos se cometem em nome do amor!

Revista RIE - Fevereiro de 2010

 

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