Gênesis e evolução da alma Imprimir E-mail
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Cairbar Schutel

Publicado na RIE em junho de 1925

A luta pela vida é necessária ao desabrochamento do princípio espiritual. O esforço individual conduz ao progresso geral e a mesma potência que se constituiu no estado de homem nos abrirá as perspectivas infinitas da vida espiritual, desenvolvendo-se na imensidade dos Cosmos. - G. Delanne

A vida da alma começa como a vida do corpo, mas não finda como esta.

“O que é da terra é terreno, o que é do céu é celestial”.

“Há corpos terrestres e há corpos celestes; uma é a glória de uns, outra é a glória de outros”.

No céu também há muitas estrelas, no éter flutuam muitos astros, mas cada um tem a sua luz, a sua composição, a sua localização, o seu destino! A Lei de Deus é uma única, mas a criação que ela rege é infinita na variedade de coisas e de seres. As árvores, as ervas que tapizam as campinas e ensombram as florestas e as matas não têm as mesmas folhas, as mesmas flores, os mesmos frutos, os mesmos troncos. As folhas diferem uma da outra; as flores, cada qual tem o seu odor, o seu formato, a sua cor; um fruto é diferente de outro na forma e no sabor, e todos eles variam em coloridos, cujos tons abrangem o nosso órgão visual.

Tantas são as espécies animais que existem no globo como as areias das praias: se uns deslizam nas águas, outros se arrastam no solo; há os que andam e correm céleres como as corças; inumeráveis são os que voam nos ares!

A Lei de Deus é da unidade regendo a diversidade, dando a cada um e de cada um reclamando, de acordo com a posição que ocupa na natureza.

Há um só Deus; há uma só Lei: este princípio estabelece a plenitude dos atributos divinos.

No reino animal a escala de corpos está em relação com a escala de espíritos que ocupam esses corpos: do insignificante inseto à águia ou ao condor; da traça que rasteja ao rei das selvas, ao homem dos bosques; do troglodita das cavernas, do cafre boçal, do hotentote ao sábio, ao santo, ao apóstolo, cada um se diferencia pela indolência ou pela atividade; pela inaptidão ou pelo espírito de iniciativa; pela braveza ou pela mansidão; pela rudez ou pela compreensão; pela ignorância ou pelo saber; pelo ódio ou pelo amor; pelo instinto ou pela inteligência.

Há homens que são da terra, há homens espíritos; há filhos dos homens e há filhos de Deus.

A vida da alma começa como a vida do corpo, mas não finda como esta. Onde acaba o instinto começa a inteligência.

Qual é a gênesis da alma?

A inteligência é o grande fator das maravilhas: artes, ciências, letras, todas as manifestações do Bem, todas as fulgurações do belo, são efeitos da inteligência.

Ela começa desde o nascimento do espírito, na manifestação das pequenas causas, eleva-se, estende raízes, braceja, distende-se, tem nadir mas não tem zênite, tem princípio mas não tem fim: começa como o roble na terra, sobe em espiral para os céus, para a eternidade, para Deus!

Na escala da perfectibilidade não é só no reino mineral que o carvão se transforma em diamante; não é só no reino vegetal que vemos o cardo transformado em lírios e açucenas — no reino animal, do réptil ao cavalo, ao cão fiel, ao gorila, o elo não se quebra, a cadeia não se rompe; o mesmo sucede no reino hominal.

Esses andares, se assim nos podemos exprimir, esses círculos de ação divina estão ligados, unidos. Não há abismos a transpor, não há vácuos às escâncaras para devorar almas.

Assim também no reino espiritual a natureza obedece, como nos reinos materiais, a mesma ação gradativa, paulatina, constante.

Tudo evolui, tudo progride. Na “escada de Jacob” não há falta de um só degrau, e quando o Patriarca em êxtase viu a escada começando na Terra, olhando-a em direção ao céu, não alcançou a sua finalidade: viu “anjos” que subiam guiados por outros “anjos” que desciam como Guias.

A evolução é uma verdade incontestável, que demonstra o axioma: “Deus é eterno; a alma é imortal”.

Há matéria, consequentemente há espírito. “A matéria é inerte por si mesma, não tem arte, não tem vida, não tem saber”. Este princípio materialista, proclamado por Buckner, nos faz chegar à conclusão de que os corpos não se produzem por si mesmos. A alma, que se afirma independente do corpo, não pode ser produto das forças nêuricas e cerebrais. O espírito é que forma, modela e aperfeiçoa os corpos; o espírito é que dá vida ao corpo: mens agitat molem.

Todos os corpos orgânicos são produzidos por inteligências; não poderiam eles aparecer por obra do acaso. Todos eles são produtos de inteligências, testemunhos da existência dessas inteligências, obras de arte dessas inteligências.

Nas mínimas coisas se nota a existência de uma inteligência produtora, nas máximas o mesmo acontece: não há obras sem artistas, não há criação sem criador.

Numa simples mesa, num tosco banco vemos transparecer a ideia de uma inteligência que manufaturou-os. Se é uma estátua não negamos a autoria a um estatuário, se é uma máquina não excluímos a ideia do mecânico, se é um livro, o escritor e o artista nos aparecem através das suas páginas e da forma com que a obra se nos apresenta.

Não há geração espontânea para as coisas mínimas, como pode haver para as de maior valor, para as obras vivas?

Que lógica é essa que não aceita as mínimas coisas surgindo por azar do nada e aceita as máximas?

Não pode haver obra sem artista; não pode haver corpo sem alma.

Quantos corpos existem do reino inferior animal ao reino hominal?

Não denotará esse encadeamento de corpos a evolução gradativa, progressiva do menor para o maior, do minúsculo animal ao homem?

Essa coordenação de seres não demostrará, porventura, que o espírito, na medida do seu aperfeiçoamento, vai construindo corpos de acordo com a sua natureza espiritual para lhe servir de instrumento, de intermediário em sua manifestação exterior, para sua manifestação terrestre?

Para que obscurecer a verdade que nos é apresentada como um livro aberto no qual todos podem ler?

Tudo se cria e nada se perde na natureza; tudo se modifica e transforma, e essa criação, essa modificação, essa transformação não se opera desinteligentemente. Toda a manifestação inteligente denuncia a existência de um ser inteligente, uma causa inteligente; seja um simples seixo burilado, seja uma planta, uma árvore, não se lhes pode negar um autor. Aquele é obra “morta”, estas são vivas. Só se diferenciam uma de outra pelo agente físico ou químico que os engendrou e aperfeiçoou, ou seja o fluido vital e o buril no seixo, e o fluido vital na planta, porém em ambos, conquanto esse fluido passe por modificações, é oriundo em sua diversidade de ação do Fluido Cósmico, donde tudo é criado.

Não se pode, também, comparar uma planta a um animal, aquela é uma criação dotada exclusivamente de instinto, sem outro agente que esse fluido vital que lhe dá uma certa duração, vamos dizer, virtual; ao passo que o animal e o homem têm uma vida própria.

A planta tem instinto, o animal, embora inferior, tem inteligência.

A inteligência do animal inferior é rudimentar, mas é inteligência e susceptível de aperfeiçoar-se, ou, para melhor dizer, é perfectível.

A planta tem instinto, o animal tem instinto e inteligência.

O homem, a seu turno, tem instinto e inteligência rudimentar.

No animal é o instinto que predomina, ao passo que no homem é a inteligência que governa.

Será o instinto o início da inteligência, a sua elaboração?

O homem é um ser essencialmente racional: o corpo goza da vida vegetal como a planta, mas o fluido vitalizante neste já sofre uma modificação distinta daquele que mantém o vegetal, visto serem os corpos, tanto no reino animal como no reino hominal, providos de um outro elemento de vida mais intensa, mais ativa. A este elemento é que Allan Kardec deu o nome de perispírito.
 
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