José Medrado \| Carnaval: ir ou não? (Coluna Religião)
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Carnaval: ir ou não? (Coluna Religião) Imprimir E-mail

Nós, que lidamos com religião, estamos acostumados a ver todo tipo de hipocrisia e dissimulações. Pregações sem exemplos... Sabe aquela coisa do faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço, pois é.

Lembro-me de um Carnaval de há muito, estava no sítio de uma querida amiga, pois naquele ano resolvi que não iria nem ver o Carnaval, estava muito cansado. Queria descansar realmente. Decidi ir visitar uns amigos espíritas, pois moravam perto de onde eu estava. Esse casal sempre me dava “conselhos” dizendo: Medrado não vá ao Carnaval. Você sabe, há muitos obsessores por lá, espíritos querendo brechas para perturbar a vida dos outros. Eu sorria, consciente de que se tratava de uma assimilação ilusória acerca de o lugar gerar obsessão, pois é sabido que a interferência nociva dos espíritos não se encontra onde estamos fisicamente, mas onde está a nossa mente. Fui fazer a visita. Cheguei, foi aquela alegria, a senhora vibrou em ver que eu não tinha ido dar uma espiadinha no Carnaval. Perguntei pelo marido, ela disse que ele estava no gabinete, lendo algum livro, pois a vida dele era ler, afirmou a bondosa senhora. Dirigi-me ao gabinete, disse que iria fazer uma surpresa.
    
A surpresa não foi, no entanto, para ele, foi para mim, pois, assim que entrei no gabinete, lá estava o “vigilante” senhor, os olhos grudados na antiga TV Manchete, assistindo a uma transmissão do Carnaval de um clube do Rio de Janeiro. A mulherada dançando seminua, e o tão diligente e equilibrado espírita não piscava os olhos. A sua concentração era de tal forma, que nem o meu boa-noite o fez escutar. Naturalmente que pilheriei, dizendo: “Fulano, eu não fui para o Carnaval, mas você está se esbaldando nele, ou fazendo desobsessão pela televisão?”. O constrangimento pesou.
   
É impressionante como realmente algumas pessoas levam muito a sério essa questão de viver de aparências, de afivelar uma “persona” e mantê-la o tempo todo, principalmente a de missionário.
   
É fato, claro, que se tem possibilidades muito maiores de se estar sob uma interferência espiritual nociva, em um ambiente sobrecarregado de energias que podem ser pesadas, mas esta situação não é bastante para que se gere um processo obsessivo, ou a pessoa se prenda a uma rede de miasmas, que fará a sua vida degringolar, diria minha mãe, completamente. Eu sempre parto do princípio de que energias deletérias não são adstritas a espaços físicos, mas ao campo dos nossos pensamentos, da nossa psicosfera. Uma pessoa poderá não estar em um lugar fisicamente, como o meu amigo acima, mas a sua mente poderá. Tudo, então, e é sabido, é uma questão de sintonia.
   
E então, ir ou não ir ao Carnaval?
   
Eu, como adoro estar no meio de gente, gente me faz bem, vou um dia, sem me preocupar com os obsessores, pois tenho muitos companheiros espíritas que se preocupam por mim.

José Medrado é fundador da Cidade da Luz.
 
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