| Musa da propina (Coluna Opinião) |
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Faz poucos dias, estava em uma roda de amigos conversando sobre os desmandos, falcatruas e roubalheiras de muitos políticos, cada um colocando as suas considerações, quando um amigo, bem preparado intelectualmente, comentou a respeito de Jaqueline Roriz – aquela que foi filmada com um maço grande de dinheiro, mas não foi cassada porque os seus pares disseram que aquilo foi antes dela ser deputada, ou seja, a investidura no legislativo brasileiro confere ao seu conquistador uma mudança radical de caráter, uma espécie de lavagem de alma. Então, como disse, esse amigo afirmou que ela se “safou” porque foi esperta, e há muita gente por aí que já roubou muito mais do que ela. Imagine que ele não é nem eleitor dela, posto ser baiano e vive aqui em Salvador. Lembrei-me, por oportuno, da história de uma índia Tapanhuma que tem um filho, o herói Macunaíma, às margens do Uraricoera. O herói tem dois irmãos, Maanape e Jiguê, aos quais ele engana em relação ao trabalho: "Ai que preguiça". Surge aí na visão do modernista Mário de Andrade o protótipo do herói brasileiro: sem caráter. Tem se estabelecido no seio do povo brasileiro, de um modo geral, que o agravante da infração está no valor, no quantum representa em uma escala de valores que foge da ação em si, para a quantificação em cifras, como se roubar pouco não é problema, o problema está no grande roubo, ou seja, os pequenos trambiques pode, não pode os de grande vulto, como se honestidade pudesse ser aquilatada em uma régua do pouco ao muito. Em uma sociedade que vive de aparência, onde muita gente quer se lambuzar neste mel das conquistas fáceis, o que importa é não perder a oportunidade. A verdade é que vemos no exercício de uma cidadania distorcida a estrutura de uma práxis do buscar estar acima de tudo, do posso tudo e nada vai acontecer. Antigamente, não muito lá atrás, era usual o tal “você sabe com quem está falando?”, quando só um naipe da população se achava acima do bem e do mal. Hoje o Olimpio está lotado, em razão da quantidade de deuses que acham que podem tudo, porque simplesmente o Estado está omisso. Duvida? Veja aí o seu vizinho e os seus desmandos.
José Medrado
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