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APENAS TE VIVIA Imprimir E-mail


Foto de Kau Mascarenhas: Cupidos numa fonte em Versailles - França

Fuçar as próprias coisas, sobretudo mexer em velhos textos, torna-se uma verdadeira auto-arqueologia.

Tal qual o sujeito na Grécia que dá uma topada numa coisa e quando vai olhar com calma percebe tratar-se do cucuruto de um deus mitológico feito em mármore quase completamente enterrado. Escava daqui e dali e... tchan tchan tchan tchan! Faz o achado importante de um sítio arqueológico valiosíssimo com 1.500 anos de idade.

De vez em quando, acidentalmente, surge um texto que eu não lembrava ter escrito. Pois é... hoje eu me preparava para dar aulas, eram 5:30 da madruga, sol nascendo por detrás do horizonte da praia de Armação em minha janela, e o laptop me mostra uma poesia que fiz há bastante tempo.

Ela fala de vidas que ficam vazias quando alguém se anula, esquece de si mesmo, por causa de um relacionamento.

Eis que surge, serendipticamente, um novo sítio de escavações, e recordo um tempo em que me apaguei por alguns anos para me encaixar naquilo que alguém queria que eu fosse. Resolvi compartilhar com você. Ah! Vale dizer que, no fundo, a escolha será sempre nossa.
Se você viveu - ou vive - algo assim, acredito que vai se identificar com esse texto poético.

 


Apenas te vivia
(de Kau Mascarenhas)

Olho para trás dos calcanhares,
E vejo passos que não são os meus.
Fiz caminhos que para mim escolheste,
Na ânsia de aceitar os nortes teus.
Eu te dei a força com que te abasteceste,
Enquanto minha alma doída se enfraquecia.
Ouço os rumores dos muitos mares,
Pelos quais transitaste com bravura.
Não as ondas com que meu eu sonhava,
Tampouco ecos das montanhas
Que me desafiavam com sua altura.
Só as lutas em que tua coragem aparecia...
Sinto não ter voado em meus próprios ares
Faltou em mim vontade, coragem, decisão.
Porque eu passando pelo mundo sem deixar marcas,
Firmaste as tuas pegadas em meu chão.
Fiz assim minhas passadas bem mais fracas.
E não me mostrando ao mundo, apenas te vivia...

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