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Ciência e Espiritualidade

Inteligência Artificial: Em busca da consciência e da personalidade
(Folha Espírita, novembro de 2008)
Julio Peres, psicólogo clínico, doutor em Neurociências e Comportamento pela USP e pós-doutorado pelo Centro Espiritualidade e Mente da Universidade Pensilvânia, EUA

As neurociências têm trazido importantes avanços relativos à compreensão da “linguagem” neural. Por exemplo, o treinamento de controle de um braço robótico através de um circuito fechado de interface cérebro-máquina é possível hoje em macacos, e num futuro próximo possivelmente ocorrerá em humanos (Nicolelis and Chapin, 2002). As implicações terapêuticas serão marcantes em vítimas de traumas que interromperam a comunicação entre o cérebro preservado e a motricidade dos membros.

O desafio maior de uma parte considerável das neurociências é decifrar como correntes de pulsos elétricos/químicos, varrendo o sistema nervoso central são, de alguma maneira, traduzidas em consciência, pensamentos e emoções. A despeito dos avanços, a possibilidade da leitura computacional da linguagem neural não esclarece a questão da criação ou mediação cerebral em relação aos fenômenos mentais. Contudo, a hipótese de que a mente seja um epifenômeno (subproduto) neural motivou pesquisadores a reproduzir artificialmente as redes computacionais visando em última instância a criação do “Eu”.

Estudos sobre comportamentos intermediados por processos neurais inconscientes (memórias implícitas, reflexos cognitivos, tratamento de estímulos sensoriais e ações/respostas automáticas, etc.) suportam o funcionamento cerebral como um refinado sistema computacional. As abordagens neurocientíficas convencionais postulam não conclusivamente que a consciência seja uma propriedade emergente de interações complexas entre os neurônios.

Contudo, se fosse possível realmente reproduzir um sistema nervoso, essencialmente neurônio por neurônio, numa bancada computacional, a consciência se manifestaria? Estudiosos da Inteligência Artificial (IA) como Christof Koch, Terry Winograd e Hans Moravec respondem que sim e inferem que as propriedades físicas do cérebro e do sistema nervoso criam a mente. Uma importante parcela de investigadores acredita ser possível construir algoritmicamente a alma humana (Devoto, 1992).

Nos últimos 15 anos observamos linhas de pesquisas sobre personalidade, psicologia transcultural, ciência cognitiva, física, engenharia e neurociências combinadas em um número crescente de investigações sobre sistemas computacionais que procuram emular o tratamento humano de informações (Pew and Mavor, 1998).

A personalidade e as expressões emocionais são os principais atributos diferenciais entre os humanos e humanóides controlados por redes computacionais. Assim, grande esforço tem sido feito para dissecar e reproduzir o irretorquível número de variáveis (personalidade, temperamento, emoções, representação e a articulação simbólica do conhecimento, inclinações idiossincráticas, coerência situacional, flexibilidade adaptativa, etc.) que compõem a humanidade.

Ishiguro e Nishio (2007), entre outros investigadores, justificam que o desenvolvimento de inteligências artificiais em robôs andróides pode trazer uma melhor compreensão da própria natureza humana. Na tentativa de dissecar os elementos constituintes da personalidade para então combiná-los computacionalmente, algumas definições objetivas, porém parciais, foram adotadas como referenciais de partida. Por exemplo, o modelo Cinco Fatores de Personalidade, usado inicialmente em vários projetos de IA, postula que a personalidade se organizaria hierarquicamente em apenas cinco fatores (McCrae & John, 1992).

Abordagens recentes mais complexas estudam características da personalidade, da emoção e da cultura, como plataforma para o desenvolvimento de mapas cognitivos computacionais. Segundo investigadores de IA os sistemas mais avançados (ex. ACT-R/PM, COGNET/iGEN®, EPIC/GLEAN, KISMET, OMAR, Repliee, Soar) compartilham vários princípios válidos à compreensão dos elementos que aproximam máquinas de humanos. Por exemplo, Kismet é uma expressiva “criatura” robótica com modalidades perceptuais e motoras adaptadas aos canais de comunicação natural aos humanos.

O robô é equipado com dispositivos visuais, auditivos, sensoriais e proprioceptivos, além de recursos que permitem vocalizações, expressões faciais, sinais comunicativos motores e capacidade para ajustar o olhar na direção dos olhos da pessoa com quem interage (Breazeal, 2000). Porém, o refinamento da chamada Arquitetura Personalizada de Cognição, que supostamente permitiria a criação de representações do comportamento humano com variabilidade sobre a personalidade, a emoção e até certo ponto dimensões culturais, não alcançou expressão individual do Eu, tal como ocorre em humanos.

A despeito de algumas crianças identificarem um robô humanóide como agente e não como um objeto (Arita et al., 2005), os ingredientes dinâmicos constituintes da personalidade, que tornam um ser único, não foram ainda encontrados pelos investigadores. Em suma, tais robôs se comportam mais como autômatos inteligentes do que como pessoas reais com bases motivacionais e emocionais que afetam a cognição e o comportamento.

Uma revisão recente dos avanços conceituais e empíricos nesse campo demonstra que as variáveis interindividuais da personalidade são demasiadas para a modelagem de uma arquitetura da personalidade (Cervone, 2005). A engenharia computacional não conseguiu criar o senso de individualidade carregado de emoções, temperamento, desejos e livre-arbítrio nos robôs, e que assim se tornariam “criaturas”. A mais avançada complexidade computacional não contém os ingredientes da vida anímica ou da consciência. Assim postulam outros investigadores de IA: a dinâmica cerebral, e seu funcionamento quântico, vai muito além das propriedades computacionais e não pode ser modelada como uma rede neural que obedece aos princípios da física clássica (Hameroff, 2001; Kurita, 2005).

Lembramos que Penfield (1978), depois de seus estudos com estimulação elétrica do cérebro in vivo para mapear as funções corticais, advertiu que as redes neurais isoladamente não seriam capazes de produzir a consciência, afirmando: “A mente tem uma existência distinta do cérebro, embora esteja intimamente relacionada a ele… Não há local no córtex cerebral onde a estimulação elétrica fará o paciente decidir.” Consideramos que o cérebro seja um complexo mediador do livre-arbítrio e da vida anímica, provedores do desenvolvimento da personalidade através das vidas sucessivas.

Referências Bibliográficas
Arita A, Hiraki K, Kanda T, Ishiguro H. (2005). Can we talk to robots? Ten-month-old infants expected interactive humanoid robots to be talked to by persons. Cognition. 95(3):B49-57.
Breazeal, C. (2000), “Sociable Machines: Expressive Social Exchange Between Humans and Robots”. Sc.D. dissertation, Department of Electrical Engineering and Computer Science, MIT.
Cervone D. (2005). Personality architecture: within-person structures and processes. Annu Rev Psychol. 56:423-52.
Devoto R. (1992). Is it possible to build up an algorithm of the human soul? Acta Psiquiatr Psicol Am Lat. 38(2):103-11.
Hameroff S. (2001). Consciousness, the brain, and spacetime geometry. Ann N Y Acad Sci. 929:74-104.
Ishiguro H, Nishio S. (2007). Building artificial humans to understand humans. J Artif Organs. 10(3):133-42.
Kurita Y. (2005). Indispensable role of quantum theory in the brain dynamics. Biosystems. 80(3):263-72.
McCrae, R., & John, O.P. (1992). An introduction to the Five-Factor Model and its applications. Journal of Personality, 60, 175-215.
Nicolelis MA, Chapin JK. (2002). Controlling robots with the mind. Sci Am. 287(4):46-53.
Penfield W. (1978). The Mistery of Mind – A critical study of consciousness and the human brain. Princetown University Press.
Pew R. & Mavor A. (eds.) (1998). Modeling Human and Organizational Behavior: Application to Military Simulations. Wash., DC: National Academy Press.

Julio Peres é psicólogo clínico, doutor em Neurociências e Comportamento pela USP e pós-doutorado pelo Centro Espiritualidade e Mente da Universidade Pensilvânia, EUA ( contato@julioperes.com.br)

FÉ E CIÊNCIA
O Deus de Einstein
Como o maior de todos os gênios lidava com as questões metafísicas da humanidade. E o que o seu conceito pessoal do Todo-Poderoso pode ensinar à tropa de choque dos cientistas-ateus do século 21.

Marcelo Damato

Confira a seguir um trecho dessa reportagem que pode ser lida na íntegra na edição da revista Galileu de novembro/2007.

Em meados dos anos 1930, o diplomata e mecenas alemão conde Harry Kessler (1868-1937) chegou para o já renomado Albert Einstein e lançou: “Professor, ouvi dizer que você é profundamente religioso”. Sem se alterar, o cientista respondeu: “Sim, você pode dizer isso. Tente penetrar, com os nossos meios limitados, os segredos da natureza. Você vai descobrir que, por trás de todas as concatenações discerníveis, há algo sutil, intangível e inexplicável. A veneração a essa força que está além de tudo o que podemos compreender é a minha religião. Até certo ponto, de fato, eu sou religioso”.

Apesar de um tanto escorregadia, a resposta – e outras declarações ao longo da sua vida – não dá muita margem a dúvidas: Einstein acreditava em Deus. Embora seja bem menos complicada de entender do que a Teoria da Relatividade, a idéia que o cientista desenvolveu do Todo-poderoso é cheia de sutilezas e meios-tons. Isso fez com que, assim como suas descobertas científicas, seus conceitos religiosos gerassem controvérsias e discussões que chegam acesíssimas aos dias de hoje.

Fonte: Revista Galileu

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