Reencarnação e Desencarnação

A encarnação é o mecanismo básico pelo qual evoluem os indivíduos, espiritualmente e biologicamente, fazendo assim, evoluir também o meio onde atuam e se relacionam, dando então, sua parte de colaboração na co-criação menor do mundo onde vivemos1.

Presenciamos hoje, uma avalanche de novas possibilidades trazidas pelo avanço científico, abrindo frentes para novas tecnologias que instrumentalizam uma profunda interferência sobre os seres vivos e sobre nós mesmos, tudo isso numa velocidade muitíssimo maior que nossa capacidade de estabelecer os conceitos éticos necessários para desenvolvê-las com segurança.

Diante disso, o Espiritismo, devido ao seu inédito e ainda pouco compreendido tríplice aspecto; ciência, filosofia e religião; toma a dianteira, já que, há 150 anos discute questões como: Quando começa a vida?

Na questão 136 do OLE encontramos o seguinte texto:
“(…) Antes do nascimento, não há ainda união definitiva entre alma e corpo; enquanto que depois que essa união está estabelecida, a morte do corpo rompe os laços que o unem à alma, e a alma o deixa.(…)”2

André Luiz, no livro “Missionários da Luz” nos esclarece que a reencarnação inicia-se na fecundação e se completa por volta dos sete anos de idade, já que é um processo e, portanto, não possui um ponto limite, uma fronteira à não ser seu início e seu fim.

É claro que, o conhecimento científico ao tempo de Kardec, impossibilitava o entendimento de detalhes como os que nos foram dados por André Luiz, mas fica claro que a vida encarnada tem início na fecundação, mesmo que o processo só se conclua aos sete anos. Quem ousaria dizer que uma criança não é um ser encarnado?

Deixando um pouco de lado o conteúdo da literatura espírita e buscando essa mesma resposta nos livros de biologia, embriologia e genética, vamos encontrar o seguinte conceito: A vida de um novo ser inicia-se com o “zigoto”, ou seja, após a união dos núcleos dos gametas masculino e feminino. Nenhuma nova informação ou tecnologia desenvolvida pela biologia até hoje, trouxe qualquer tipo de dado que possa questionar esta informação.

Concluímos então que, tanto pela ciência estabelecida, quanto pelas informações doutrinárias espíritas, não podemos e não devemos questionaro fato de ser, o início da jornada encarnatória, coincidente com a fecundação, seja qual for o método pelo qual ela se dê, in vitro ou in vivo.

Como sabemos, o espírito materializa seu corpo físico através do perispírito, sendo este causa imediata e instrumento intermediador ao mesmo tempo, posto que possibilita ao espírito sua manifestação como corpo biológico, estruturando a partir de sua individualidade (espírito); possibilidades genéticas (genoma); condições ambientais (meio sócio-cultural); e fatores cosmológicos (influências eletromagnéticas sutis sobre os campos biológicos), uma personalidade que se desenvolverá gerando aprendizado e evolução, para ao final deste ciclo, acrescentar à sua individualidade, tudo aquilo que amealhou com a experiência.

O Dr. Ian Stevenson, emérito psiquiatra da universidade da Virginia nos EUA, por conclusão de suas pesquisas que duraram mais de 40 anos, estabeleceu os mesmos conceitos que colocamos acima, ou seja: a personalidade atual é formada a cada encarnação, sendo definida por ele como sendo o conjunto de características expressas, ou com possibilidades de se expressar, sendo assim, uma manifestação parcial de uma individualidade muito maior e mais complexa, que evolui na medida de suas experiências reencarnatórias, e construída por intermédio do que ele chamou de psychophore, organizando e orientando as células embrionárias na determinação das formas orgânicas3.

O final deste ciclo orgânico biológico se dá pelo processo inverso, ou seja, a desvinculação do perispírito de seu veículo de manifestação física, fenômeno que é também um processo, por isso, com limites ainda imprecisos para os nossos olhos.

Se na encarnação podemos definir com bastante precisão o início e o fim do processo, para o desencarne a dificuldade é maior, já que a mesma questão 136 de OLE nos assevera que:

“(…) A vida orgânica pode animar um corpo sem alma, mas a alma não pode habitar um corpo privado de vida orgânica.”4

Ou seja, podemos ter vitalidade em um corpo cuja alma já desencarnou, o que dificulta muitíssimo o diagnóstico do momento do desencarne que pode não coincidir com o momento da morte biológica.

Na questão 155 de OLE, Kardec é mais direto e pergunta se há uma linha de demarcação bem nítida entre a vida e a morte, obtendo a seguinte resposta:

“- Não, a alma se liberta gradualmente e não se escapa como um pássaro cativo que ganha subitamente à liberdade. Esses dois estados se tocam e se confundem (…)”.

O processo pode levar horas, dias, semanas meses ou anos, dependendo da quantidade de fluido vital que ainda existe no organismo biológico e do grau de apego do espírito à matéria, gerando durante este período, um estado de perturbação que só terminará com o completo desenlace do perispírito.

No campo da ciência, ainda hoje, o momento de se decretar a morte é controverso, o que mais uma vez mostra uma coerência com a revelação espírita. Não temos condições de verificar, sem sombra de dúvidas, se determinada pessoa já esta morta ou não.

Lembrando-se sempre que não se deve cortar o que pode ser desatado, e conjeturando as dificuldades que temos para determinar o momento do desencarne, devemos nos abster de proceder qualquer tipo de ato que possa abreviar artificialmente a vida (eutanásia), o que não significa sobremaneira, admitir uma postura de obstinação terapêutica sobre uma pessoa cuja morte é, sabidamente, inevitável e cuja recuperação é impossível (distanásia).

Ficamos com a “morte natural” como sendo o ideal, situação que fica exatamente entre a eutanásia e a distanásia, mas cujos limites são igualmente imprecisos, pedindo àquele que assiste o desencarne, alguma sensibilidade, única maneira de se portar até que tenhamos condições de estabelecer a ausência da alma, de forma incontestável, por intermédio de algum recurso diagnóstico complementar; quem sabe um detector de campos biomórficos, por meio do qual solicitaríamos ao radiologista um perispiritograma a fim de verificar o andamento do desencarne.

Como conta a Dra. Marlene a respeito de um comentário do nosso querido Chico Xavier:

“Morrer é fácil, difícil é desencarnar”

O processo do morrer se dá tal qual a metamorfose da lagarta em borboleta, que primeiro fica imóvel, tecendo um casulo que a possibilitará, por histólise e histogênese, transformar-se em uma borboleta para o renascimento para o mundo espiritual.

Quando nascemos, vimos de um processo de nove meses aonde vamos construindo lentamente nossos laços com a carne, gestados pelo amor de nossa mãe, para em determinado e crucial momento, virmos à luz com o auxílio de um obstetra ou obstetriz, que nos recebe e procede a desconexão de nosso cordão umbilical; mesmo assim, permanecemos por um bom período de tempo torporosos, desconfortáveis com nossa nova situação, necessitando auxílio para nossa proteção e alimentação.

No nosso desencarne procede-se o mesmo, em sentido contrário, pois começamos a gestar nossa desconexão com a carne num processo que, de maneira geral, é mais tranqüilo quanto mais longo for, amparados pelo amor dos que nos aguardam “do outro lado”, como fez nossa mãe (muitas vezes e ela mesma que nos gesta de volta), para que, no momento crucial, irmos à luz, com o auxílio de um obstetra ou obstetriz, que nos recebe e procede a desconexão de nosso cordão de prata, liberando-nos do corpo físico, ao que se seguirá um período de torpor, desconfortáveis com nossa nova situação, necessitando auxílio para nossa proteção e recuperação.

Nascer e morrer são duas faces da mesma moeda, dois aspectos de um mesmo processo, fundamental para nosso desenvolvimento. Sendo assim, ao nascermos estamos morrendo para os que nos aguardam no plano espiritual, e ao morrermos estamos nascendo de volta para ele.

Diante desta constatação, lembro-me de uma frase atribuída a Confúcio que diz:

“Feliz é aquele que, ao nascer, chora enquanto todos riem, e ao morrer, ri enquanto todos choram”.

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