Desabafo

Sempre digo que não me tornei espírita, mas que descobri que era após ler “O Livro dos Espíritos”, e posso dizer exatamente por que:

O espiritismo é, essencialmente, lógica e racionalidade, não se utiliza de metáforas, e todos os conceitos são colocados de forma clara afim de não deixar dúvidas, e acredito que todos vão concordar comigo que não deixou.

O espiritismo não é religião, é mais que isso, não é filosofia, é mais que isso, não é ciência, é muito mais que isso, pois é isso tudo ao mesmo tempo, gerando uma base sólida, uma moral irrefutável um novo ponto de partida, mais seguro que qualquer outro que a humanidade já tenha utilizado como premissa.

O espiritismo permite que deixemos de ser cindidos, preservando nossa personalidade, na medida em que podemos unir a nossa vida social com a nossa vida espiritual e com a nossa vida profissional, sem a necessidade das máscaras ou dos compartimentos que criamos em nossa personalidade para sermos aceitos em todos os meios que transitamos, mimetizando aquele em que nos encontramos.

A obra de Kardec nos dá este alicerce fundamental sobre o qual esta se construindo um saber revolucionário, na medida em que vai fundindo todo o conhecimento humano como nos propôs o filósofo contemporâneo Edgar Morin, e que nos parece um apelo irresistível diante de tudo o que já acumulamos até aqui.

O espiritismo, então, ainda hoje é uma proposta revolucionária de aprender, pois já em 1857 propunha um único caminho que abarcava ciência, filosofia e religião.

Porém, isso tudo já sabemos, isso tudo me parece tão claro, como parece muito claro que a moral cristã é a grande notícia trazida pelo espiritismo; é a moral cristã proposta, colocada e não imposta, minuciosamente explicada em todos os seus porquês pelo nosso mensageiro do Cristo.

Descobri e abracei-o com todas as minhas limitações, imperfeições e ignorância, mas também com toda a minha vontade e com todo o meu coração. Passei a vivenciar o movimento espírita e, com o tempo, participar mais ativamente dele compartilhando de centros espíritas, congressos e simpósios, porém, esta “lua de mel” foi terminando na medida em que fui percebendo o tamanho de minha ingenuidade diante da pretensão que tinha de admitir, nas fileiras espíritas, apenas pessoas diferentes das demais, com uma orientação que promovesse um comportamento coerente com aquilo que é pregado e difundido pela doutrina.

Espíritas que pregam a caridade, maldizendo companheiros por um motivo ou outro. Espíritas se reunindo em grupinhos vinculados a personalidades de destaque e que passam a combater-se por questões menores buscando hegemonia. Espíritas proclamando idéias frontalmente antagônicas à moral cristã em nome de uma falsa modernidade e de uma posição de vanguarda que só acusa o grau de ignorância com relação às próprias idéias fundamentais do pensamento de Kardec, e pior, espíritas que usam a letra fria de “O Livro dos Espíritos” para gerar interpretações literais a questões que nunca poderiam ter sido abordadas naquela época, como o uso de células tronco ou o momento do início da vida, menosprezando o conhecimento científico e repetindo um comportamento, tão criticado por nós espíritas, de alguns de nossos irmãos que professam outras formas de cristianismo.

Que herança é esta que nos faz tão hipócritas ao ponto de tecer comentários desagradáveis a respeito de espíritos aos quais não chegamos nem aos pés? Que dificuldade imensa de praticarmos a humildade que tanto exortamos e que nem mesmo enxergamos quando vemos diante de nós, como a exemplificada por Chico Xavier? E por falar nisso, não estamos endeusando o Chico quando, apenas, damos a ele o devido reconhecimento por sua obra e exemplo de verdadeiro cristão.

Aonde pretendemos chegar se não nos preocupamos em, ao menos, tentarmos ser aquilo que anunciamos como lema de vida e princípio ético e moral?

Não somos espíritas para sermos modernos, mas verdadeiros, o que, nos tempos em que vivemos, já é tão moderno que chega a ser revolucionário.

Não somos espíritas para convencer os outros de que estamos certos e eles errados.

Não somos espíritas para buscar nas comunicações mediúnicas, “dicas” sobre nosso futuro ou nosso passado.

Ou somos?

Que reforma íntima eu posso providenciar se não olho para meus próprios erros? Que transformação íntima eu busco se procuro apenas o conforto da opinião pública e ignoro a opinião íntima?

Minhas decepções têm sido constantes e profundas, não com o espiritismo, que se mantém irretocável e cada vez mais forte com o desenvolvimento científico, mas comigo mesmo, na medida em que tenho tido muita dificuldade em entender e aceitar, meus irmãos de doutrina que têm mostrado, fartamente, todo este paradoxismo que existe entre o que somos e o que deveríamos ser.

Tiremos de Kardec o que ele nos deu de mais precioso, a sólida base moral explicitada em seus detalhes filosóficos que nos chamam à razão e também ao coração, e tiremos da obra mediúnica de Chico Xavier, o que ela nos traz de mais importante, qual seja, a contextualização desta doutrina para os dias de hoje e o apelo ao direcionamento filosófico e científico para o amor, mas não transformemos a obra destes pilares da evolução humana, em uma caricatura desviada de seu eixo central, como muitos fizeram com a mensagem de Jesus, fazendo surgir uma verdadeira cruzada intelectual onde a espada é a palavra, levando em Seu nome, irmãos à morte à dor e ao sofrimento.

Este é o meu desabafo, demonstrando minha desilusão pela falta de caridade, firmeza doutrinária, paciência e humildade, que tenho observado naqueles que, por conhecerem tão bem a lei, são mais culpados de não segui-la, deixando bem claro, que começo a crítica por mim mesmo.

Perdoem-me a arrogância que possa demonstrar aqui, mas a compreensão que tenho da lição deixada por Jesus e especificada por Kardec, leva-me à conclusão de que espírita que apóia o aborto, que não defende a vida, que não respeita a oportunidade alheia, que quer “reformar” a doutrina, que me perdoem, mas não são cristãos, portanto, não são espíritas, por uma questão de definição e não de intolerância.

Se ainda não compreendemos o básico, de que adianta nos debruçarmos na profundidade científica e filosófica que o espiritismo nos oferece?

Não tive a intenção de atacar ou criticar ninguém além de mim mesmo, mas peço que façam com este texto, aquilo que imaginei que eu mesmo deveria fazer:

REFLETIR

E-mail:  iandolijr@uol.com.br

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