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Meu Pai: o homem que me apresentou o Sol nascente

kaupaiHoje estou no hospital com meu pai.

A maior parte do tempo fico aqui com ele como seu acompanhante desde que foi internado há três semanas, após os tumores do fígado terem despertado quais vulcões que aparentavam estar extintos, cobrando agora atenção com erupções de alteraçôes em sua saúde.

Toca minha alma o fato de vê-lo acamado, com o corpo enfraquecido e os olhos quase sempre fechados. E nos poucos momentos em que ficam abertos, lhes falta o brilho costumeiro. Esta se mostra, sem dúvida, como a fase mais difícil que sua saúde já viveu desde que conheceu o câncer.

Estar aqui no hospital com ele me faz refletir acerca da vida e das transições que passamos enquanto espíritos humanos com mente absurdamente poderosa numa realidade corpórea com certas limitações. Igualmente, penso muito acerca dos vários significados possíveis para as dores que vivenciamos.
Lembrei-me de muitos episódios especialíssimos com os quais a sabedoria e o amor de meu pai me brindaram. Um deles foi o momento em que vi o sol nascer pela primeira vez.

Era um desses desejos que uma criança de nove anos repete para os pais várias vezes de forma insistente, por semanas. Havia assistido na TV a algum filme ou novela em que aparecia o nascente, mas àquela época nosso aparelho ainda era em preto e branco.

Imaginava o quanto devia ser lindo assistir ao espetáculo do sol estreando um novo dia, saindo glorioso por detrás do horizonte, colorindo as nuvens com as cores laranja e rosa em diferentes tons.

Numa noite de verão meu pai resolver atender meu desejo e me disse: “- Amanhã vamos juntos ver o sol nascer. Prepare-se para acordar bem cedo, heim?”

Nossa! Quase não dormi aquela noite. Para mim não era pura e simplesmente ver um espetáculo natural ou satisfazer um capricho de infância, mas ir com meu pai, eu e ele sozinhos, numa aventura diferente e emocionante. Ele me falou que não iríamos pela rua, e sim atravessaríamos as dunas de areia branca e a mata até chegarmos à praia. Para minha mente imaginativa aquilo era algo de tirar o fôlego!

Mais de três décadas se passaram. Agora ele está ali na cama à minha frente. Meu herói ferido.

Encontra-se adormecido a maior parte do tempo e, por não conseguir comer, foi necessário inserir a sonda nasal para alimentação enteral. O soro permanece hidratando e repondo sais do seu corpo por via venosa. Por recomendação médica, não deve se movimentar muito. Por isso permanece em repouso quase o tempo inteiro, e até o banho é feito no leito. De fato, não é uma situação muito confortável.

Nosso planeta não é cor-de-rosa o tempo todo.

Vivemos aqui situações que envolvem emoções como medo, raiva e tristeza, e não apenas alegria e experiências amorosas. Tudo isso é muito humano. Como diria Nietzsche, “demasiadamente humano”.

Acompanhar a doença e o envelhecimento de um ente querido mexe com questões absolutamente humanas como a nossa impotência em determinados contextos. Outro ponto em que essas situações nos tocam é a realidade de que a idade também baterá à nossa porta.

Mas como dizem alguns é muito bom envelhecer, até porque a outra opção que temos é morrer cedo. Que olhemos os fatos a partir de novos ângulos.

De todos os aprendizados importantíssimos que extraí das neurociências, em especial da PNL – Programação Neurolinguística, o mais importante em minha vida é, sem sombra de dúvida, a ressignificação.

Nós não reagimos aos fatos, mas ao significado que damos aos fatos. Dar um novo significado é como colocar uma nova moldura numa experiência e a partir de então ter reações e sensações novas diante dela.

Podemos ver a dor chegar e não mergulhar nela, se compreendermos que ela tem como significado um recado da vida para que iniciemos uma mudança.

Podemos não chegar à satisfação de uma expectativa e mesmo assim sentir algo diferente ao invés de fracasso. Basta ver que aí reside algum aprendizado a ser percebido.

Podemos considerar como grandes conquistas as pequenas mudanças na recuperação da saúde de um paciente. Por exemplo, um momento em que meu pai simplesmente se levantou da cama com nossa ajuda para um trabalho de fisioterapia para nós já se mostrou como uma vitória digna de ser festejada.

Podemos extrair enfim, de cada coisa pequenina ou até mesmo das maiores dificuldades, algum rico tesouro, separando do cascalho das dúvidas e julgamentos, as pepitas de ouro escondidas que querem se lançar sobre nossas vidas, mostrando-nos bênçãos de paz, fé, acolhimento e amor.

Meu pai me ensinou isso em muitos momentos. E aquela simples madrugada em que saímos juntos tornou-se um momento emblemático.

Ele trabalhava na Petrobrás e o bairro em que morávamos, e onde ainda reside com mamãe, nasceu de uma iniciativa do Sindicato dos Trabalhadores das Indústrias de Extração de Petróleo, daí seu nome: a sigla STIEP. Trata-se de um conjunto habitacional de classe média que possuía casas iguais e que atualmente, quarenta anos depois de construído, estão completamente remodeladas.

A leste, o bairro possui uma área preservada de mata e grandes dunas de areia muito alva, numa extensão de alguns hectares. Provavelmente, em sua parte maior, deve ter altura equivalente à de um prédio de 10 andares.

Era o lugar predileto das nossas brincadeiras da infância e da adolescência, e nos deliciávamos descendo as dunas em desabalada carreira ou rolando o corpo e chegando lá embaixo com areia da cabeça aos pés. Minha mãe havia nos proibido de ir brincar no areal pois o considerava território deserto e perigoso. Ali também já havia ocorrido acidentes com crianças sendo soterradas.

Claro que essa lei foi quebrada inúmeras vezes. Era um lugar perfeito para crianças urbanas brincarem pois, mesmo dentro da cidade, se assemelhava a uma floresta. Tinha nas suas muitas árvores várias espécies de pássaros, curiosos sagüis, calangos e cobras. Nas áreas de mata fechada se encontravam ingazeiras e cajueiros. E, é claro, lá estava o tobogã natural com muitos metros de areia branca e macia sobre a qual deslizar. Algumas vezes usávamos caixas de papelão e a diversão de descer em alta velocidade pela rampa branquinha até lá embaixo era ainda maior. Só um adulto muito ingênuo imaginaria que poderia segurar com proibições nossa vontade de fazer essas mil peripécias no areal.

Mas naquela manhã eu teria o aval de meu próprio pai para escalar as dunas e para me embrenhar na mata. Melhor, ele estaria na aventura comigo!

Saímos de casa ainda com a escuridão da noite; a lua e um montão de estrelas brincavam no céu, sem pressa para se recolher. No entanto, mais ao longe, alguma claridade já despontava fazendo o firmamento ter um azul menos profundo em certas áreas. Meu irmão, três anos mais novo, continuou dormindo gostoso em sua cama. Ao sair, orgulhoso, eu pensava: “essa não é uma missão para ele, uma criança pequena, mas para mim, um corajoso explorador com nove anos de idade!”

Sentir a mão do meu pai segurando a minha me enchia ainda mais de orgulho.

Descemos o barranco que havia no final da nossa rua e rumamos para as dunas. Nosso destino final: ver o nascer do sol na praia.

Chegamos logo ao areal e antes de subir a grande ladeira feita de grãos branquinhos e finos, retiramos as sandálias de borracha e as prendemos nos dedos das mãos calçando-as como luvas. Foi possível sentir como a areia estava fria e úmida após ter recebido o orvalho da noite. Era muito gostosa a sensação dos pés entrando na areia, vencendo a camada mais dura e levemente molhada e encontrando a camada de baixo, mais solta, igualmente fresca mas com textura diferente, que deslizava por entre os dedos. As sombras ainda dominavam a paisagem e os grilos enchiam o ar com seu insólito cântico.

Meu pai e eu subimos o morro usando também as mãos munidas com as sandálias havaianas, como apoio, e ao chegarmos no topo, uma espécie de platô que se estendia por mais uns 150 a 200 metros até a descida da mata, sentamos ali para respirar um pouco, descansar os músculos das coxas, e olhar a paisagem. À época quase nada havia além das casas do STIEP e mais um ou outro prédio salpicando os bairros do Costa Azul e da Pituba bem adiante. E logo ali, às nossas costas, a mata que descia e nos levaria à praia do Jardim de Alah com seu coqueiral, um cartão postal da nossa bela cidade do Salvador.

Hoje a realidade é bem diferente e são inúmeros os empreendimentos imobiliários da região que ainda fazem pipocar mais e mais prédios altos todos os anos. Se escalarmos o areal atualmente teremos outra visão. Espero que essa área continue preservada e possa continuar representando para muitos meninos o cenário de aventuras que foi para mim, meu irmão e meus amigos.

Começamos a andar no platô e antes de chegarmos à mata meu pai falou:

– Cuidado! Olhe isso aqui, meu filho. Quase pisamos neles – falou sussurrando.

Eram dois calanguinhos verde-azinzentados dormindo abraçados na areia, tendo o maior não mais que quinze centímetros, já contando com a cauda.

Fiquei encantado. Já ia dirigindo minha mão para tocá-los e meu pai impediu.

– Não, filho. Eles têm o direito de dormir mais um pouco pois o sol ainda nem acordou. Deixe os bichinhos em paz.

Durante nossa infância meu pai sempre aproveitava ocasiões como aquela para nos dar lições sobre ecologia e respeito a todo e qualquer ser vivo.

Depois de descermos o areal do outro lado, enveredamos pela mata acompanhando o fino riacho daquela região a que chamávamos de “Paraíso”. Anos mais tarde aquele local seria usado por usuários de drogas e representaria perigo se acessado à tardinha e à noite.

Ao todo foi uma caminhada de 20 minutos no máximo, e chegamos à praia antes das 5:30.

As nuvens não permitiram ver o astro-rei sair por detrás do horizonte como eu havia sonhado, no entanto o espetáculo se mostrou ainda mais impressionante.

Ao sentarmos na areia, com os olhos voltados para o horizonte, víamos altos cúmulos cinzentos que escondiam o sol mas deixavam seus raios saírem espremidos por entre suas bordas rendilhadas e coloridas em tons dourados e rosáceos. Eram lindos e bem definidos os filetes de luz que se esgueiravam permitindo que desenhássemos com a mente o ponto central escondido pelas nuvens. A imagem fazia lembrar um quadro com uma representação católica do Sagrado Coração de Jesus que minha avó tinha na sala de sua casa.

Aqui e ali uma gaivota lançava seu trino característico enquanto a brisa soprava nossos cabelos. Sobre o mar a luz também demonstrava seu poder e sua arte, derramando uma miríade de pontos luminosos horizontais ao longe, dançando em cores diferentes ao sabor das águas e, na beirinha, deixando a espuma mais branca na faixa de quebra das ondas. Bem perto dos nossos pés a areia se convertera num espelho que refletia toda a beleza que era construída nas alturas.

Não sei ao certo quanto tempo ficamos ali contemplando a pujança daquele nascente que Deus havia nos dado. Quem conhece meu pai sabe que ele não é de falar muito. Portanto, é bom que se diga que aquele foi um instante cheio de cor, brilho, afeto, mas, igualmente, de paz e silêncio.

Eu era ali um menino muito feliz. Tinha meu pai da terra sentado ao meu lado, e o Pai dos céus se esmerando acima de nossas cabeças em construir mais uma das suas lindas e únicas obras, nos ofertando um momento mágico para guardar no coração. Meu primeiro sol nascente.

Hoje estou aqui no hospital com ele e o vejo dormindo enquanto digito esse texto. Penso nesses dois pais maravilhosos. O pai que me deu o corpo físico e o Pai que soprou a vida que tenho, como espírito. Sou muito grato a ambos.

Os dois são tranqüilos; serenos e silenciosos. Ambos são de poucas palavras, mas muito presentes.

Vejo a presença de Deus, carinhosa e sossegada, em tudo o que me cerca e na bênção que é existir. E acompanhar a resistência de meu pai, pacífica mas firme, também me faz ter muita fé sempre. É hoje a sua forma de estar presente em minha vida e de continuar me ensinando.

Em vários momentos ele driblou corajosamente todas as expectativas sombrias dos prognósticos médicos.

Após a primeira cirurgia para retirada de um tumor de pâncreas, os médicos previram de 6 a 12 meses de vida. E isso aconteceu há 16 anos. Homem forte!

Recorremos à medicina do mundo material e à do espiritual para ajudar em seus processos de cura. Orações, vibrações, passes, fluidoterapia, tratamento mediúnico, além de todos os recursos que o mundo pode oferecer. Os resultados foram excelentes e ele teve uma vida praticamente normal, de saúde boa e estável em quase todo esse tempo.

Nos últimos cinco anos o câncer acordou em outro órgão, o fígado, e a partir de então ele começou a apresentar seus altos e baixos. Contudo, sempre se saiu bem e nos fez boas surpresas. Certamente, fará o mesmo outra vez.

Sei que qualquer momento de dor pode ser também oportunidade de crescimento e de grande aprendizado. Estou tirando dessas três semanas de hospital com ele preciosas lições sobre a delícia de cuidar de quem se ama, a bênção de servir a quem tanto já me serviu, a glória de fazer sentimento virar ação em favor de quem precisa, a ajuda de várias pessoas que nos dão sua generosa presença e seu carinho curador, enfim, a inefável e doce comunhão de almas que se colocam juntas para atravessar mais facilmente uma fase de desafios.

Hoje, aqui no hospital, estamos ligados para mais uma aventura. Só que dessa vez meu pai é meu filho.

Assim como ele me convidou naquela madrugada a pegar sua mão para ver o nascer do sol, hoje sou eu que aperto a sua e lhe digo que o amo, e que estou ao seu lado, enquanto ajudo os enfermeiros a fazerem algum procedimento. Podemos ressignificar esse instante numa nova aventura a desfrutar juntos.

Protejo o seu sono das formas como posso, procurando diminuir o entra-e-sai bastante comum num quarto de hospital, deixando que durma tranquilamente, assim como ele fez com os pequenos lagartos do areal naquela madrugada.

E olho para o alto pedindo a Deus proteção e paz, saúde e forças, recordando daquele início de dia com suas nuvens coloridas e dos raios de sol que delas saíam, fulgor amoroso, que poderia representar o coração acolhedor e compassivo do Criador.

Ele está na cama dormindo sob o efeito de remédios e eu lhe repasso uma informação que me chegou há pouco tempo:

“Pai, lembre que você é Carlos e tem o Rei dos Nomes. Cada uma das suas letras representa uma majestade: “C” de Cristo, o Rei dos Reis. “A” de Amor, o rei dos sentimentos. “R” de Rosa, a rainha das flores. “L” de Leão, o rei da selva. “O” de Ouro, o rei dos metais. E “S” de Sol, o astro-rei.”

Demonstro meu amor com meu olhar, minhas palavras ou meu silêncio, meu toque, meu apoio. Digo o que posso. E, às vezes, mesmo calado, da forma como ele gosta de se comunicar, envio o pensamento: “saiba que estou aqui do seu lado, como seu filho, súdito, admirador e companheiro de caminhada”.

E me encho de esperança ao me lembrar que Deus está silenciosamente ao nosso lado também.
Comigo e com ele.

Pois antes de ser meu pai ele já era filho de Deus.

(Kau Mascarenhas)

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One thought on “Meu Pai: o homem que me apresentou o Sol nascente

  1. Juraci Pires Reply

    Emocionante o texto Meu Pai : O homem que me apresentou o Sol nascente.
    Este é o exemplo de Pai que semeou a boa semente no solo fértil do coração do filho!
    Ensinamento que nos leva a refletir: Estamos fazendo o dever de casa que Jesus nos ensinou com suas lições de Amor a Deus e ao próximo???

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