CONSIDERAÇÕES SOBRE O FILME “PODER ALÉM DA VIDA”

Os links do filme “Poder Além da Vida” com nossos estudos e experiências na área do Coaching se evidenciam do início ao fim da película.

O jovem ginasta Dan Millman tem um objetivo muito bem traçado que é conseguir se classificar para os jogo olímpicos, e acredita que seu valor está relacionado com a concretização desse sonho. O aparecimento do misterioso velho sem nome, pode ser visto como uma metáfora do coach que se encaixa na vida do coachee, trazendo as ferramentas e o método mais adequados ao desenvolvimento do seu potencial e aos questionamentos de suas crenças, para que possa se auto-realizar, seja na obtenção daquilo que busca ou na construção de novas metas. Não é à toa que o rapaz o apelida de “Sócrates”, numa referência direta ao icônico filósofo grego criador do processo maiêutico de fazer perguntas, e que pode ser visto como uma das bases ancestrais do coaching.

Perguntas poderosas se mostram em seus diálogos desde o início tais como: “Você é feliz?”, e “Se não conseguisse ser classificado para a olimpíada, o que você faria?”, que têm um intuito absurdamente provocador em relação àquilo que Dan tem como certezas. Por outro lado, o sábio idoso também o presenteia com aforismos que lhe dão agulhadas nas crenças como: “não há propósito maior que servir os outros”, “não quero que você aceite minhas respostas, quero que encontre as suas”, “não há momentos banais, sempre há algo acontecendo”, e “é a jornada que nos faz, não a chegada”.

Longe de ser um caminho simples e tranquilo todo o tempo, o relacionamento que os dois desenvolvem é cheio de tensões que se mostram sobretudo nos instantes de desacordo e rebeldia, como quando Dan pensa em desistir e fazer tudo a partir dos seus automatismos antigos, ou quando se revolta e exige respostas e orientações diretas. Como um bom coach, “Sócrates” se mantém no seu papel e espera que o rapaz administre suas emoções, permitindo inclusive que ele cometa erros e aprenda a partir de suas próprias experiências. Um coach não pode e nem deve assumir a responsabilidade de proteger o coachee dele mesmo, mas abraça a causa de ajuda-lo a enxergar quem ele é, e mostrar que pode construir seu próprio caminho.

O pesadelo recorrente de Dan, em que se vê esfacelando a perna, acaba por se concretizar num acidente de moto. Trata-se do momento mais duro de sua vida e ao mesmo tempo aquele que lhe traz maior riqueza de aprendizado. O sábio idoso continua a seu lado, reforçando em suas lições o quanto é importante reconhecer os adversários dentro de si mesmo como arrogância, vaidade, medo, competitividade, orgulho, desregramento – armadilhas do Ego a impedir o cumprimento de nossa missão de vida. No filme a cena que melhor ilustra essa luta, para mim, é aquela em que Dan discute com seu Eu Mundano no alto da torre em uma de suas visões. Esse seu “outro eu” pode ser visto como a representação das subpersonalidades sabotadoras que impedem o acesso aos recursos oferecidos pelo Eu Sagrado.

Aprendendo a esperar, a agir e a estar no Presente, saboreando cada passo de sua estrada seja ela carregada de dor ou de prazer, tendo em mente a tríade ensinada por “Sócrates” – paradoxo, humor e mudança – Dan finalmente se recupera dos ferimentos provocados pelo acidente e empenha-se em resgatar sua competência através de árduo treinamento, tanto físico como mental e emocional.

Assim, contraria os sombrios prognósticos dos médicos e do técnico de sua equipe, personagem esse que aparece como contraponto, representando muitos aspectos daquilo que um coach não deve ser ou fazer.

No final, Sócrates desaparece de forma intrigante.

O sumiço físico do idoso pode ser entendido como o instante em que o processo de coaching termina, uma vez que o coachee atinge sua meta. Não é papel do coach permanecer lado a lado com seu cliente eternamente, criando dependência. O coaching pressupõe desapego em dupla mão, e o que o coach mais quer é que seu coachee tenha autonomia para reger sua própria vida, e possa seguir seu caminho.

Isso me remete a um poema de Mário Quintana em que ele diz que “os portos foram feitos para os barcos, mas os barcos não foram feitos para os portos”. Sim, nós, no papel de coaches fomos feitos para os coachees; mas os coachees não foram feitos para ficar ancorados em nós. Devem seguir os mares dos seus destinos, mirando os largos horizontes dos seus próprios sonhos.

Na cena final percebemos que, mentalmente, o jovem já possui uma espécie de coach interno, como se seu próprio Eu Sagrado estivesse a dialogar com ele com a voz do idoso. E ouvimos então o valioso diálogo, tão importante quanto sintético:

– Que horas são, Dan?

– Agora.

– Onde você está?

– Aqui.

– O que você é?

– Este momento.

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