O UNIVERSO ESCONDIDO NO BANAL:

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O UNIVERSO ESCONDIDO NO BANAL: Contemplando um Pedacinho de Chão
(Kau Mascarenhas)

Contemplar o simples, devassar o aparentemente menos interessante, descobrir a beleza onde a beleza se esconde e se faz menos provável.

Essa foi a minha escolha para um exercício de contemplação com duração de duas horas, em meu curso de formação de Coaching. Farei um relatório da experiência em tempo presente pois estou anotando todos os insights que brotam.

Uma aranha pequeníssima constrói sua teia bem ali, perto dos meus pés, entre algumas folhas de grama. Seus fios são invisíveis. Logicamente, apenas para mim. Observo o transitar de suas patas ligeiras e como o soprar do vento a faz tremer de quando em quando.

Ela pára, paciente e repete seus movimentos entre as folhas tão logo o vento cessa. É incansável.

Eu me pergunto se, de alguma forma, um olhar maior estaria a se deitar sobre mim e meu trabalho, assim como faço com a aranha.

Quem sabe sou o inseto de um observador cósmico que, assim como eu, nota o que faço e como eu vivo, sem interferir.

Talvez Deus aprenda conosco, nos observando igualmente e por isso seja infinitamente sábio.

As infinitas ações de seus infinitos filhos, sejam boas ou más, ou neutras, quiçá, podem servir para que se agigante eternamente em seu saber. E assim, quem sabe, Ele aprenda nos dando lições, simplesmente estando presente.

Passou-se uma hora inteira de contemplação e a teia permanece invisível para mim, tal a delicadeza de seus fios. Sou míope para a percepção do que ela quer de verdade, e do que ela faz.

Tenho contato com sua ação mas não sou capaz de captar seus resultados.

É a ela que eles pertencem de fato. A vida é dela.

A paisagem maior quer me seduzir agora. As flores de hibiscus brilham seu vermelho intenso sob o sol, beijadas por amarelas e ágeis borboletas. Um garboso cavalo marrom pasta e relincha a cerca de vinte metros. O galo canta um pouco mais longe. O verde da mata, poderoso, cobre a colina e suga meu olhar. O grande interfere na minha observação sobre o pequeno.

A beleza fácil e óbvia me desvia o olhar que quero lançar sobre o microcosmo eleito pelo meu Eu Sagrado para ser o alvo de minha contemplação. E a ele retorno, humilde, pedindo desculpas à minha pequenina aranha, a mestra que se mantém em plena ação.

Curiosamente noto que ela baila no ar, bem perto da barra da minha calça. Aproveitou meus poucos segundos de distração e já queria me incluir em seu projeto de teia.

Afasto a perna e ela retorna a suas folhas na grama, sem qualquer perturbação.

Formigas trabalham nas imediações e me pergunto se elas serão o almoço de minha amiga de oito patas. Minha mente viaja aos tempos de menino quando atirei pequenos insetos na teia de alguma aranha. Era impressionante ver sua destreza em sentir o prisioneiro a partir da vibração de seus movimentos nos fios. Lançava-se em sua direção e começava agilmente a cobri-lo com teia deixando-o envolto numa espécie de casulo para mais tarde retornar e poder devorá-lo.

Não. Não farei o mesmo agora. Minha postura é contemplativa, e a curiosidade da criança que ainda habita em mim cede espaço à observação neutra do adulto, que agora quer aprender sem interferir.

Mais uma vez me dou conta de que minha mente saiu desse momento, perdeu o foco, e mergulhou no passado. Respiro e retorno ao ponto de meu interesse. Um pedacinho do chão, com mais ou menos trinta centímetros quadrados de grama, que agora são o palco do espetáculo que a vida me convocou a assistir.

Olho para baixo e procuro o cenário.

Que surpresa! Sinto-me abandonado, a aranha sumiu. Traiu-me.

Quem ela pensa que é? Isso não é justo. A teia continua se apresentando quase invisível, e sua dona não mais ali se encontra.

Investigo cada pedacinho das folhas de grama, perscrutando cada centímetro e não a localizo.

Talvez seja o instante de observar a ausência e como ela ensina.

O vento traz um pedacinho de grama seca e ele se prende num dos fios. Movimenta-se agora ao sabor do vento e me oferece um inusitado balé. Ele gira, tremula, rodopia em torno do fio. Na ausência da dona da casa o pedacinho de grama reina, tomando completamente meu olhar. Ele é o astro.

Outro lampejo, novo aprendizado. Tudo muda embora o cenário seja o mesmo.

O vento sopra agora mais forte e me pergunto com sanha de roteirista de cinema: qual será o desfecho dessa história? Haverá um gran finalle após essas duas horas de contemplação cujo encerramento se aproxima? Algo mais interessante acontecerá para gerar um “uau!” na plateia constituída de todas as minhas subpersonalidades? Afinal terão sido 120 minutos de observação cuidadosa, de um olhar resignado, constante e ávido por lições.

Um pedacinho de gramado, que certamente foi desconsiderado e pisado inúmeras vezes por pessoas e animais, agora mereceu ter a atenção absoluta de um ser humano que o vê como fonte de aprendizado e atinge status de tema para uma crônica.

A aranha voltará? Um inseto se prenderá em sua teia? O bailarino pedacinho de grama seca se descolará ou fará circunvoluções ainda mais extraordinárias?

Mais uma vez noto que algo me tira do presente. Dessa vez é o pensamento no futuro, no que vai acontecer, em vez de observar o que está acontecendo. Para que fugir do agora? O final será o que tiver que ser e trará aprendizado igualmente rico.

Respiro fundo e retorno ao presente, o único tempo que de verdade é meu.

Contemplar silenciosamente o ponto que escolhi se mostra, de fato, um exercício mais desafiador do que pensei, e certamente mais transformador do que jamais poderia imaginar.

Aquieto-me e aguardo pacientemente os últimos minutos da experiência. Nunca pensei que dedicaria na minha vida duas horas inteiras a olhar um pedaço de gramado, sentado numa calçada de cimento, quando o espaço da fazenda ao meu redor é tão cheio de possibilidades de exploração dos sentidos.

O despertador me sinaliza o término do tempo.

Penso que estive na companhia de bons mestres. A aranha, o vento, as folhas da grama… aprendi muito, descobri potencial, e nem todas as lições foram captadas de forma consciente.

Uma sensação importante: o contentamento em perceber que posso asserenar a mente e focá-la naquilo que eu quiser, mesmo que momentaneamente não me sinta tão motivado para essa canalização de foco.

Foi bom fazer silêncio e ficar em minha própria companhia, retirando do todo ou da parte, do macro ou do micro, os recursos e o aprendizado que há em toda e qualquer coisa.

Foram duas horas em que simplesmente estive ali, exercitando tão somente o fato de ali estar – e de doar integralmente a minha presença.

Que bom ter me permitido viver isso.

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