Outras primaveras

Quando anunciou sua renuncia, Bento XVI, alertou para urgência de se “colocar em prática o verdadeiro Concilio Vaticano II”. Essa assertiva pode ser interpretada como uma resposta estratégica a demanda do cardeal Carlo Maria Martini que, antes de sua morte em Agosto do ano passado, clamava a necessidade de se convocar um Concilio Vaticano III, para ajustar às demandas de nosso tempo, uma igreja que, em seu julgar, estava 200 anos atrasada.
Parece espantoso para muitos que um Papa conservador como Bento XVI, tenha feito referencia, em sua renuncia a um dos três mais importantes e revolucionários concílios da Igreja (de importância equivalente ao de Nicéa em 325 e o de Trento 1545 à 1563).
Quando João XXIII convocou o Concílio Vaticano II recriou-se de certo modo, o clima da democracia original da Igreja. Ouviu-se, pelos corredores do vaticano, um eco do cristianismo original, a presença de um tempo no qual os bispos eram eleitos pelo povo e a comunidade cristã, colegiadamente, se contrapunha a um modelo político de centralização, instituído na figura do imperador, chefe supremo e infalível da religião romana.
Bento XVI foi o último Papa a ter participado ativamente do Concilio Vaticano II e o conhece por dentro, mesmo tendo feito parte da linhagem de cardeais conservadores que bloqueou os avanços do concilio. Temas como o celibato dos padres, a questão dos contraceptivos, ou mesmo o aprofundamento de uma gestão colegiada no interior do vaticano, foram retiradas das pautas de discussão da Igreja na linhagem que seguiu a morte de João XXIII. Paulo VI, João Paulo II e Bento XVI sempre foram ligados a uma tendência contra-reformista que teria bloqueado o potencial revolucionário do Concilio Vaticano II. Se assim o é, porque essa referencia agora a um Concilio que não teria sido posto em prática?
A crise que passa a Igreja católica é estrutural. A dificuldade de se formar novos padres para atividade missionaria e o colapso da vocação feminina na igreja (os católicos perderam 50 mil freiras nos últimos anos) são sintomas mais evidentes de uma situação que parece estrangular a própria vida eclesiástica.
Uma igreja sem fieis é um problema, mas uma igreja sem padres ou sem freiras seria o quê? A renuncia de Bento XVI, na maioria das vezes foi interpretada a partir de suas razões, chama mais atenção pelo se efeito. Saber o porquê do Papa ter renunciado não é a questão central. O mais relevante é saber o que sua renuncia produzirá em uma estrutura comprometida por uma profunda crise de identidade e de credibilidade.
O efeito mais imediato é o chamamento ao confronto político e a necessidade de se construir uma discussão ampla e profunda sobre o futuro da Igreja Católica no ocidente. Sobre o rótulo do conservadorismo a Igreja precisa pensar em sua própria sobrevivência como instituição, projetar seu futuro diante de um tempo hostil em que os poderes da transcendência parecem terem sido dominados, em seu próprio território teológico, por uma urgência niilista que não condiz com a esperança utópica cristã de uma parusia redentora.
Se for correto a regra que diz Ecclesia semper reformanda (a Igreja deve ser sempre reformada) a esperança do povo católico é que a renúncia do Papa possa materializar no século XXI, o que João XXIII anunciou ao fazer referencia ao seu Concílio como “uma flor de inesperada primavera”.
 São essas, as primaveras mais ansiadas. As outras primaveras, as que surgem, inesperadamente, quando o inverno da história parece ser mais inexpugnável.
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