Por que os ônibus queimam?

Pablo Capistrano

Escritor, professor de filosofia do IFRN

www.pablocapistrano.com.br

twitter.com/@pablocapistrano

No dia 20 de Setembro de 1989 o grêmio da ETFRN recebeu uma convocação para participar de uma grande passeata de estudantes que estava sendo puxada pela UMES. Tratava-se de um protesto contra o aumento das passagens de ônibus.

Em pouco tempo os membros da direção passaram nas salas chamando os alunos para deixar as aulas de lado e se aglomerar na frente da escola para seguir atrás de um carro de som em direção à Praça Cívica. No caminho nos juntamos com os estudantes de diversas outras escolas públicas estaduais e alguns alunos de escolas privadas que conseguiam, a despeito da proibição de suas direções, pular os muros dos colégios para seguir com a turba que os instigava a abandonar a sala e aula e ganhar a rua. A passeata engrossou e quando chegou em frente a praça cívica, fechou o trânsito da avenida Prudente de Morais.

Lembro-me de estar no meio da multidão e olhar para cima, para os poucos prédios que se levantavam pelo horizonte de uma cidade ainda com ares de fazenda iluminada e ter a sensação de fazer parte da história.

Em pouco tempo iriamos votar para presidente depois de um longo período de ditadura e aquela passeata parecia que estava convocando os estudantes de minha geração a ocupar cenário político das ruas, em uma antecipação do que seria o movimento dos “cara-pintadas” de 1992.

Neste outro Setembro, vinte e três anos depois, os estudantes voltaram às ruas de Natal para lutar contra o fim do passe livre. Nesta época de redes e conexões acompanhei em tempo real tanto a mobilização quando os desdobramentos do protesto na grande caixa de ressonância social do twitter.

Dois ônibus incendiados, gente ferida, estudantes e professores presos, confronto com a polícia, ônibus pichados e mais um engarrafamento monstruoso parando a cidade.  Nada disso me chamou mais atenção do que a grande indignação de parte de meus conterrâneos e o espanto de muitos com a violência dos protestos.

A imagem dos ônibus queimados parece ter lançado a consciência média do natalense em um misto de indignação e temor. Uma arma poderosa para aqueles que querem desqualificar as mobilizações de rua neste universo virtual.

Particularmente não fiquei espantado com os ônibus incendiados. Meu verdadeiro espanto é com a violência silenciosa que mantem essa cidade funcionando em meio ao caos controlado que tomou conta de nossa vida.  Natal passa por um colapso urbano e por uma ausência absoluta de qualquer tipo de liderança política significativa que possa oferecer a população o mínimo de segurança e dar aos cidadãos um naco qualquer de dignidade em meio à guerra social das ruas, a falência da saúde, a inoperância dos serviços públicos e a sensação de que a corrupção se torna regra em meio a instituições decadentes.

Como é possível que, diante de um quadro deste, a população dessa cidade não caia em uma revolta generalizada que tome conta das ruas e exploda em um vendaval de fúria desconexa como vimos em Paris ou Londres alguns anos atrás?

Que tipo de violência é essa que mantem tudo, aparentemente, sob controle? Que tipo inexpugnável de força invisível mantém a ordem no meio do caos em que se transformou a vida em Natal nos últimos anos?

Em 1989, vinte e três anos atrás os estudantes que foram as ruas, marchando atrás de carros de som puxados por coletivos estudantis, entidades representativas e partidos políticos, ainda sonhavam com a possibilidade de se construir uma democracia representativa que mudasse a face do país e transformasse estruturalmente a sociedade brasileira. Hoje, neste tempo de revoltas digitais, onde as mobilizações eclodem em rede, sem centro ou direcionamento doutrinário tangível; ao menos para uma parcela substancial da população, essa confiança parece que não existe mais. Então, o que sobra?

Entender a violência da #RevoltaDoBusão não é difícil. Difícil é saber como é possível que uma população viva assim, nesta distopia urbana em que Natal se transformou, sem que o rastro de pólvora da revolta social se espalhe pelas ruas. Certamente, amigo velho, nesta primavera potiguar, entender nossa apatia diante da desordem do cotidiano é uma tarefa bem mais árida do que saber porque os ônibus queimam.

Categorias

Posts Relacionados

DEIXE SEU COMENTÁRIO

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *