Refletindo sobre a Drogadição

O mundo convive, nos últimos meses, com um noticiário constante, cujo tema é a crise iniciada nos Estados Unidos e que caminha de forma avassaladora por muitos países e mundo afora de maneira progressiva.

A mídia internacional e os governos das nações a classificaram como econômica, entretanto, essa é a versão mais interessante da divulgação para a população em geral, pois na verdade, o que enfrentamos é uma crise ética. As instituições financeiras e os organismos governamentais controladores agiram de modo leviano e irresponsável, apostando em lucros e resultados inexistentes, apenas esperados e especulados, sem base monetária real.

Ao lado dessa crise que, na atualidade, consome um montante de mais de trilhão de dólares no mundo, gasto entendido como necessidade premente, temos uma crise mais antiga, mais grave e com um ônus financeiro e social mais intenso. É a crise provocada pela dependência química, causada pelo uso e pelo tráfico e as suas consequências. Infelizmente, quando se fala em dependência química, a grande maioria das pessoas volta-se quase exclusivamente para as chamadas drogas ilícitas.

Dizemos isto porque, na verdade, as drogas que mais matam e lesam o indivíduo e a sociedade são o álcool e o tabaco, os quais têm sido tratados de maneira condescendente pelas autoridades e pela população.

Da mesma maneira que entendemos a atual crise econômica, vemos na situação da drogadição e as suas repercussões sociais uma crise de causa moral, fruto da leviandade e morosidade da sociedade em geral para enfrentá-la.

Muito embora os estudiosos sérios saibam que a problemática não é o objeto da dependência, mas a condição psicológica do dependente, a abordagem no campo geral está vinculada à substância ou situação viciante, negligenciando na maioria das vezes o aspecto individual e as condições psíquicas do dependente.

Nessa abordagem, desconhece-se ou há um esquecimento de que a condição viciosa íntima antecede ao vício. E que, ainda, uma ação focada apenas no objeto do vício será ineficiente e abrirá um espaço para que o dependente faça a escolha de um novo objeto de adição, mantendo-se na mesma condição.

A questão da dependência química só tem ocupado realmente os mais diversos segmentos sociais quando interfere diretamente no movimento e equilíbrio desses grupos.

Grande parte da sociedade credita ao Estado a total responsabilidade de solução do problema e a maioria clama por ações repressoras direcionadas ao tráfico, como elemento primordial de resolução da situação.

Os estudiosos e aqueles que atuam em campo com a dependência química entendem que a questão é mais ampla, que a causalidade é multifatorial e as medidas para sanear  tais dificuldades precisam partir de diversos segmentos sociais e, em especial, da própria individualidade.

Nesta perspectiva é importante frisar que as medidas utilizadas na atualidade, através de diversos segmentos sociais, prenunciam alguns resultados positivos, mas o número de recaídas e fracassos perfazem a maior parte daquilo que se observa.

No campo da saúde, é na área da dependência, de forma especial no alcoolismo, que aconteceu a primeira terapêutica, após a separação entre ciência e religião, fundamentada na espiritualidade, através dos Alcoólicos Anônimos, em 1935. No transcorrer dos anos, foi possível verificar a eficácia desta terapia, cujos princípios foram estendidos para outros grupos chamados de autoajuda, cujo objetivo é auxiliar quaisquer tipos de dependentes.

Nas últimas décadas, houve uma busca maior da associação entre saúde e espiritualidade. São várias publicações científicas e respeitáveis comprovando a importância da espiritualidade no tratamento das dependências. Tais trabalhos demonstram claramente que a presença da vivência religiosa ou de espiritualidade reduz drasticamente o índice de uso, abuso e dependência química.

Na prática, é evidente que a terapêutica vinculada à espiritualidade se faz a mais eficiente forma de ação neste campo. O Espiritismo, nesse ângulo de observação, amplia o campo da abordagem tanto na perspectiva da causalidade, quanto da terapêutica.

Tendo como base primordial a realidade do espírito e compreendendo a Lei Divina como mola reguladora da vida de relação, a Doutrina Espírita entende que toda doença é primariamente moral, porque é originada do desrespeito à Lei. Afirma, também, que este desrespeito gera alterações energéticas que atingem o ser nos aspectos espiritual, psíquico, biológico e social, desembocando no que chamamos de patologias ou transtornos, entre os quais a dependência química. E que o espírito veicula vícios e virtudes e, portanto, ao desencarnar, ele leva essa tendência, demarcada no corpo espiritual ou perispírito em forma de deformidades.

Essas deformidades vão gerar, em outra encarnação, uma herança de predisposição ao vício e abrir um campo de sintonia energética para outros espíritos vinculados ao processo, construindo a chamada obsessão.

O Espiritismo possui um rol de ações que constituem a terapêutica espiritual, de característica complementar às demais terapias, que agem na causa real do vício, que é moral, e que atua na dimensão transcendental restituindo ao perispírito sua condição sadia e afastando os obsessores. A visão doutrinária orienta que esses espíritos sejam atendidos com respeito e bondade, facilitando a melhoria dos doentes encarnados.

Portanto, sabendo que o vício é uma das manifestações egoístas e rebeldes do espírito diante do seu Criador e de suas Leis, o Espiritismo salienta que a mais profunda terapêutica é a da reforma íntima, através da transformação moral. E que o Evangelho, como cerne da moral do Cristo, resumida na máxima “Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo”, é o grande tratado para se vencer a dependência química, como também para toda e qualquer patologia, porque todas elas têm sua origem no comprometimento da individualidade.

Contato:  robertoluciovs@hotmail.com

Revista Delfos – Março de 2009

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