A hora e a vez da BR parar

Escritor, professor de filosofia do IFRN

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Depois de duas horas me arrastando no tráfego em função do protesto dos estudantes que haviam parado a BR 101em Natal/RN comecei a entender melhor o que Walter Benjamim queria dizer quando afirmava que as revoluções são os freios de contenção da história.

Nosso progresso rasgou o cenário urbano das cidades tecnocapitalistas com três poderosos símbolos: Condomínios fechados, Shoppings Centers e BRs. A classe média brasileira vive hoje entre o Condomínio e o Shopping, cruzando as BRs em busca de uma segurança perdida em meio à guerra social que se espalha pelas ruas desta distopia pós-moderna que chamamos cidade grande.

Nos refugiamos em fortalezas neomedievais e corremos para espaços vigiados, rigidamente controlados, onde nosso gozo pode ser exercido sob a vigilância de um sistema de marketing que transforma as praças de alimentação dos nossos shoppings em verdadeiros Gulags. Sedutores campos de concentração onde o prazer é a chave da cadeia e o consumo é o trabalho forçado que precisamos entregar ao sistema como pagamento pelo livre exercício de nosso egoísmo.

As BRs, assim como shoppings e condomínios, tem uma função vital neste modelo. Rasgamos nossos bairros, derrubamos velhos casarões, terraplanamos dunas centenárias e cortamos árvores que estavam aqui quando os portugueses chegaram com suas caravelas, para que a mobilidade urbana de uma sociedade que mistura medo e prazer pudesse crescer e se desenvolver pelo espaço vital da cidade.

Eu ainda me lembro amigo velho, do tempo em que a vida aqui em Natal, acontecia na calçada, nas praças e nas esquinas. Era a rua, o espaço aberto da vizinhança, com suas cadeiras postas na frente das casas, que construía o senso de comunidade. Na rua Miosótis, em Mirassol (Zona Sul de Natal) a vida acontecia pelo calçamento de paralelepípedos e na conversa com os vizinhos nos muros baixos, que serviam mais como locais para se encostar do que como barreiras para isolar as famílias do mundo.

Essa Natal, destroçada pelo progresso, cedeu lugar a uma cidade violenta, poluída, congestionada, carente de espaços abertos para o exercício de uma socialização livre. Fomos afastados de nossas ruas para dar lugar a sociedade do carro e do petróleo. Abandonamos a praça da esquina pelo sanduiche da praça de alimentação do shopping. Mas é importante saber que não escolhemos isso. Não optamos por isso. Fomos empurrados pelas políticas dos governos e pela força fáustica dos mercados que nos catequizaram com a cantilena de que, para sermos felizes, precisávamos ser modernos e que, para sermos modernos, precisamos importar um modelo de desenvolvimento urbano baseado no automóvel, no petróleo, na cerca elétrica e no sanduiche do McDonalds.

A chamada #RevoltaDoBuzão está longe de ser a revolução que Benjamim ansiava para conter o avanço sem freio do progresso que nos levou ao abismo da deterioração ambiental, da violência urbana, da desagregação comunitária e do colapso econômico. Ela é mais um sintoma do ódio social que se volta contra os símbolos do totalitarismo de mercado que sustentam a sociedade de exclusão, do que propriamente uma ferramenta de transformação efetiva.

O nosso modelo urbano, baseado no automóvel e no consumo descontrolado é ecologicamente inviável e socialmente insustentável. Se quisermos pensar em um sistema urbano mais humano vamos ter que demolir os símbolos de nossa exclusão e da nossa imobilidade.

Travar BRs não é suficiente. O melhor caminho seria destruí-las e substitui-las por outra forma, mais inclusiva, comunitária, menos poluente, mais saldável e humana de mobilidade urbana.

Enquanto isso não acontece vamos lembrando os velhos pensamentos esquecidos na arqueologia de nossos fantasmas passados, para tentar reaprender o modo certo de se pensar o presente e de se projetar um futuro viável para a nossa civilização. Uma civilização que, como escreveu Benjamim em suas teses sobre a história, parece hoje estar mais do que nunca, ameaçada pelo mesmo progresso que a construiu.

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