O Cérebro espiritual

Na primavera de 2005 a Sociedade de Neurociência norte americana anunciou que o Dalai Lama iria se apresentar como atração de abertura do encontro anual de neurocientistas que iria acontecer em Washington DC.
Sua santidade o Dalai Lama, iria proferir uma palestra sobre “meditação budista” para uma plateia de especialistas, médicos e cientistas que se debruçariam sobre os mistérios da consciência e do cérebro humano.
Antes que o evento se realizasse, um grupo de cientistas assinou uma petição em oposição a presença de um líder espiritual em um congresso cientifico, afirmando que a tal meditação budista, seria “um pouco mais do que conversa fiada”.
Os assinantes da petição escreveram: “é irônico que neurocientistas forneçam fórum a favor, e com isso endosso, a um líder religioso cuja legitimidade se baseia na reencarnação”.
O confronto, descrito acima, e citado no livro de Mario Beauregard e Denyse O´Leary (O cérebro espiritual) traz consigo não apenas implicações políticas, reforçando mais um capítulo da pseudodisputa envolvendo ciência e religião, ressuscitada por alguns intelectuais do século XIX ainda na ativa nesse começo de milênio. Ele também mostra que ainda há muito de preconceito e dogmatismo, mesmo em ambiente científicos, que, em tese, deveriam ser os locais mais livres e abertos para a experimentação e para a pesquisa.
O livro de Beauregard e O´leary não faz jus ao que se propõe no título, ou seja, a fornecer uma “explicação neurocientífica para a existência da alma”. Na verdade o livro traz mais uma crítica bastante bem argumentada a algumas ideias correntes no mundo da neurociência que servem para explicar as chamadas “experiências místicas”.
Muitos dos neurocientistas criticados por Beauregard, que protagonizou estudos na Université de Montreal e na University of Texas, parecem padecer daquilo que Karl Popper chamou de “materialismo promissório”: a crença (de base metafísica) de que, como se sabe de antemão que só existe no universo matéria e energia, então a consciência, se é que ela existe, deve ser algo que se reduza a matéria ou a energia. Algo que possa ser medida e avaliada a partir de ferramentas da física.
Outro aspecto desse tipo de postura é a redução de fenômenos religiosos a um conjunto de sintomas de algum tipo de distúrbio ou doença. Um resultado, quando não da mera picaretagem, de alguma disfunção de organismos humanos altamente complexos.
Mas o livro não se presta apenas a apontar os problemas das pesquisas de neurocientistas que tentam reduzir a experiência mística a existência de um “gene de Deus”, de algum tipo de epilepsia nos lobos temporais ou mesmo algum tipo de módulo de Deus que se manifesta no cérebro. Beaugard também empreendeu seus próprios estudos com freiras carmelitas e aponta para a existência de fenômenos cerebrais multidimensionais complexos, mediados por várias áreas do cérebro, responsáveis pela emoção, cognição, representação corporal e autoconsciência atuando no campo da experiência místico-religiosa.
As dificuldades do estudo também são levantadas. Como estudar um fenômeno raro como a experiência mística? Como entender os efeitos empiricamente observados no comportamento e na vida de pessoas que passam por esse tipo de experiência? Como é possível não levar em consideração que esses efeitos modificam substancialmente o modo de ser e de viver dessas pessoas e qualificar esses fenômenos como simples alucinação, doença ou mesmo charlatanismo?
A ciência é uma ferramenta muito significativa na aventura humana na terra. Ela é muito boa para demostrar como as coisas funcionam no mundo e para resolver alguns problemas práticos. A questão é que, muitas vezes, cientistas podem derrapar nas suas próprias preconcepções e crenças sobre a realidade quando tentam oferecer respostas filosóficas para os dilemas humanos.
Pois é, amigo velho, se você só tem um martelo é bom começar a tratar tudo como se fosse um prego.
Pablo Capistrano
Escritor, professor de filosofia do IFRN
www.pablocapistrano.com.br
twitter.com/@pablocapistrano

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