Silêncio e omissão

Temos visto na sociedade pós-moderna uma separação profunda e necessária entre moral e cultural. Parece que existe uma revisão geral de conceitos e atitudes, uma espécie de colocar cada qual em seu lugar, ou seja, percebe-se que os papéis, antanhos misturados, já se posicionam cada um em seu espaço e devidamente bem conceituados. Assim, os sobressaltos têm diminuído, pois o que se tinha como moral, hoje, se vê perfeitamente como cultural, ainda que choquem algumas ações, mas já se absorvem bem as nuances.

Percebe-se, no entanto, em alguns segmentos, uma crescente deterioração de princípios, de modus operandi, como se uma espécie de epidemia moral se estabelecesse, levando de roldão os descuidados e invigilantes. Os políticos, de um modo geral, são um claro exemplo desta enfermidade, pois têm se permitido a perda do constrangimento, da falta de pruridos e mandado ver, sem qualquer laivo de vergonha. A desfaçatez passou a ser a principal característica de muitos deles.

Vejamos o exemplo dos desmandos do Senado Federal; se, de um lado, efetivamente, Sarney não é o único responsável pelos descalabros às barbas dos seus empregadores, seus eleitores, ele se encontra na posição do direcionador-mor da severidade nas investigações, mas construiu o seu telhado de vidro, e aí?

Surgiu no País uma moral de inspiração pessoal-conveniente, onde guarda a sua sinonímia na corrupção, não apenas de valores fiduciários, mas de atitudes generalizadas.

Os poderosos não gostam de ser contrariados e, para fazê-lo, há que se ter tato, pois se sentem acima do Bem e do Mal, principalmente quando o objetivo for o de lhes oferecer alternativas de conduta sazonada, posto que a de ética esfarrapada tem se revelado a melhor estratégia para auferir status e ganho financeiro, uma vez que apostar na decência de alguém, quando está em jogo ganho expressivo, soa caricato e quixotesco.

O presidente Lula, então, ao apoiar Sarney e pedir ao seu partido que faça o seu mando, faz uma política de púlpito e de duvidosa ética inabalável, pois, em nome de uma fantasiosa governabilidade, endossa, mais uma vez uma, ação política pseudojustificada, onde um crime é travestido de incúria, gerando um endosso para o uso de relações criminosas no exercício do poder. Vemos, assim, que a transgressão e o crime estão se tornando hábitos coletivos, arraigando-se na formação das pessoas, gerando silêncios e omissões covardes, utilitárias e amorais, que já ocasionam rupturas com certas ordens vigentes, inclusive na família, fazendo surgir, destarte, uma cultura individual, consoante interesses e conceitos de cada qual.

Silêncio não evidencia respeito, tampouco a omissão apazigua. Façamos, então, valer o nosso grito, sempre: o voto.

José Medrado é membro da Academia Brasileira de Ciências Mentais.

E-mail: cidadedaluz@cidadedaluz.com.br

Categorias

Posts Relacionados

DEIXE SEU COMENTÁRIO

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *