Cara-de-pau ou delírio?

Na crista-da-onda (esta é antiga) novelesca de castas e dálits, a Câmara Federal deu mais um prova de que se sente, realmente, acima do Bem e do Mal, neste nosso país de valores invertidos e de autoridades nascidas de sucesso de pagode (sem ofensa). O fato é que o digníssimo deputado Rafael Guerra do PSDB-MG, primeiro-secretário e coordenador do comitê de gripe da Câmara, encaminhou ao Ministério da Saúde o pedido de um lote especial do Tamiflu, medicamento usado no tratamento da grupe A (H1N1), o que foi, pelo menos por enquanto, negado, mas… vamos ver.

O representante do povo mineiro, afirma, categórico, que o pedido não foi para beneficiar parlamentares – quem pensaria em um disparate desses? –, mas para ajudar as pessoas que buscam o serviço médico do Congresso, pois, disse, acredite: “Somos públicos, prestamos um serviço público. É um contrassenso que a pessoa seja atendida aqui e tenha de enfrentar outra fila para pegar o medicamento”.  Disse também que pensa em pedir o remédio ao governo do Distrito Federal.

Eu fiquei pensando, será que sempre esse pessoal agiu assim, sem qualquer prurido de constrangimento ou a desfaçatez, a certeza de que são superiores, mesmo, os leva a sequer reconhecer que são empregados do povo? Povo este que, passadas as eleições, é solenemente ignorado, de um modo geral, como parte da liturgia do cargo que ocupam, “autoridades” que são.

Há momentos, no entanto, que eu penso que muita dessa gente sofre de delírio de importância, ou, no dizer do filósofo e psiquiatra alemão Karl Jaspers, alteração do juízo de realidade, cujas ideias delirantes ou delírios são juízos patologicamente falseados, de uma realidade distorcida.

Segundo o próprio Jaspers, o acometido de delírio apresenta uma convicção extraordinária, uma certeza subjetiva praticamente absoluta. A sua crença é total, para ele não se pode colocar em dúvida a veracidade de seu delírio, in casu, “eu sou importante”, “sou de casta superior”, “a mim tudo”.

A empáfia é uma marcante característica, onde “o povo que se lixe”, “a opinião pública é volúvel” são claras evidências, dentre outras, da “patologia”. Além, é claro, do ar de nobreza que carregam.

Acredito nos idealistas, mas estes são defenestrados, atropelados, levados de roldão pelos que se arvoram, ferozes, em donos do poder e do Brasil. É certo que ainda veremos por muito tempo essa dinastia prosseguir, onde as práticas nefandas terão o brilho da incúria, da malversação de um mandato parlamentar, mas, acredito, sim, um dia nós discerniremos o suficiente para decidir que o bom não será só o para mim, mas para a sociedade, para o País. E eles, os cheios de poder, de soberba, passarão a reinar no ostracismo de suas mediocridades.

José Medrado é mestrando em família pela UCSAL

E-mail: cidadedaluz@cidadedaluz.com.br

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