Nomes de Deus

Não sei qual foi a primeira palavra que eu aprendi, mas acho que foi meu próprio nome. Se essa não foi a primeira palavra pelo menos se tornou, com o passar do tempo, a palavra mais importante e a mais perturbadora. Nos anos setenta era difícil encontrar um outro “pablo”. O primeiro xará que eu conheci foi aos quinze anos, em 1989. Durante todo esse tempo, sempre que eu ouvia a palavra “pablo” tinha a nítida sensação que alguém havia me descoberto. A ausência de outros “pablos” na minha infância me fez querer trocar de nome: “Pedro”, “Hugo”, “João”, queria um nome mais comum, um nome usual que pudesse me encobrir, me disfarçar e fazer com que eu pudesse ser qualquer outra pessoa. Talvez eu estivesse, naquele tempo, tomado por um estranho realismo lingüístico que identificava o meu nome com a minha própria natureza, como se o fato de eu me chamar “Pablo” pudesse determinar meu Ser, indicar algo sobre meu destino, ou ser decisivo na minha personalidade.

Talvez por essa antiga ansiedade eu tenha entendido o sentido do mandamento judaico que ordena não usar o santo nome de Deus em vão. No Hebraico antigo a mesma palavra usada para designar o substantivo “coisa” é usada para designar o substantivo “palavra”. “Palavra” e “coisa” no hebraico Bíblico são iguais. Usar um nome é, nesse sentido, se apropriar da coisa nomeada. Por isso esse receio que muita gente tem, inclusive aqui por essas bandas, de chamar o nome próprio do tinhoso. Precisamos usar outras formas nominais para que a “coisa” não apareça no mesmo pacote da palavra que a denomina.

Na tradição judaica, pronunciar o nome de Deus é algo grave, porque (se a palavra é a coisa) dizer o nome do Eterno criador do mundo é trazer à presença a própria base que sustenta o cosmo. Daí a regra fundamental de, sempre que o tetragrama sagrado (composto em hebraico pelas letras Yod, He, Vav e He e transliterado em português da seguinte forma: YHWH) aparece, o judeu observante das regras religiosas precisa substituir o som desse nome por outro. Adonai, El Shadai, Elohim Shabaot, Adonai Shabaot, Elohá, El, Ehieh, Iah: existem, de acordo com as tradições místicas judaicas, diversos nomes para Deus. As combinações de letras, palavras, e sons totalizam 72 nomes que compõe uma curiosíssima estrutura numérica e lingüística que perpassa toda Torah.

Esse é um elemento fundamental da doutrina hebraica, como não existem imagens, nem representações gráficas do Eterno deus de Israel, seu nome é sua mais importante representação. O judaísmo é uma religião de símbolos e não de ícones. Sua estrutura mais profunda nos leva a manipular com a linguagem em fórmulas escritas e pronunciadas. Como não existem ícones particulares para números, cada letra tem também um valor numérico que permite uma série de cálculos e de combinações que trazem à tona sentidos completamente inusitados para o texto bíblico. Por exemplo, a primeira letra da Torah é o “beit” equivalente ao nosso “b” (presente na expressão Breshit – no princípio) seu valor é 2. A última letra na Torah é o “lamed”, equivalente ao nosso “l” (presente na palavra “Israel” – cujo valor numérico é 30). Somando-se o início e o fim da Lei do universo tem-se o número 32, que faz referência, às 22 letras do alfabeto hebraico somadas aos dez principais nomes de Deus que aparecem na Bíblia.

Esse tipo de jogo lingüístico e numérico serviu de base para um sem número de interpretações místicas como a da Kabalah (sistema místico que remota, segundo a tradição ao primeiro século antes de cristo, mas que eclode na Espanha no século XII). O fato é que no judaísmo a palavra não é só um signo oco, solto em uma esfera de linguagem descolada do mundo. Uma palavra não faz apenas referência a uma outra e uma outra e uma outra. Um nome é muito mais do que um conjunto de letras e sons, ele é a própria coisa nomeada. Por isso, só o sumo sacerdote, no dia do perdão, no centro do Santo dos Santos, o templo de Salomão, em Jerusalém, poderia pronunciar corretamente o tetragrama sagrado que contem o nome de Deus: YHWH.

Assim, quando um escriba escreve, linha à linha, palavra à palavra, letra à letra, uma cópia (que só pode ser à mão) do Sepher Torah (O livro da Lei), que os cristãos conhecem como “O Pentateuco”; não pode haver erro. Um equívoco, uma letra fora do lugar, um nome escrito errado e não é apenas uma cópia de um rolo de pergaminho que vai para o lixo. Errar a grafia do Livro da Lei, para um judeu observante, é tão grave quando mexer na própria estrutura do universo. Porque aquelas palavras e aqueles nomes, escritos naquele livro, não são só linguagem. Eles trazem consigo a própria estrutura do universo.

Disse minha mãe que meu nome nasceu no começo dos anos setenta, quando, em Maracajaú, na casa de Walter Varela, meus pais ouviam Milton Nascimento bem no meio de um tempo em que o vento daquele mar e o calor daqueles velhos verões em uma praia ainda deserta, faziam com que se sonhasse mais, se desejasse mais e projetasse mais algum futuro. Um tempo no qual a palavra esperança tinha alguma referência e havia muito poucos “pablos” por aqui. Hoje os “pablos” são banais. A estranheza de ouvir meu próprio nome já arrefeceu e agora, nesse novo mundo em que palavras são só palavras, e signos se multiplicam sem nenhuma referência as forças do mundo, me sinto livre. Hoje, eu ando espalhado pela linguagem das pessoas como se minha natureza não fosse mais minha, como se eu, não estivesse assim, tão só, como uma ilha, cheio de mim, cercado de outros por todos os lados.

 

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