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No portão de entrada do complexo de Auschwitz estava escrito “Arbeit macht Frei”. Em bom alemão isso significa algo do tipo: “O trabalho liberta”. Há uma pitada de ironia mórbida nessa piada sem muita graça. Esse foi um dos efeitos mais sinistros do nazismo, usar os valores fundamentais dos alemães para impetrar um dos crimes mais assustadores da humanidade. O fato é nem todo tipo de trabalho liberta. Transformar o trabalho em um valor absoluto é parte de uma estranha forma de escravizar o homem. Por isso a idéia de que o trabalho liberta me causa tanta náusea. Marx ensinou a humanidade que o trabalho que liberta é aquele que leva o trabalhador a se apropriar dos frutos de seu próprio trabalho. Um trabalho mecânico, anti-natural, automático, alienado ou mal pago não liberta ninguém. Ao contrário, massacra e escraviza. Por isso, desde o mais profundo do tempo, quando a humanidade abandonou o paraíso natural da floresta antiga (coisa que os Tupis só fizeram quando foram obrigados) e começou a marcar o tempo com um calendário de produção agrícola, inventando o expediente semanal e a hora de trabalho, é que os homens comemoram ferozmente o happy hour.
Um dos momentos mais significativos da semana, no meu entender é a sexta feira à tarde. Na minha terra, quando o relógio bate três da tarde de sexta feira poucos são aqueles que não sentem em seus corações o apelo irresistível do fim de semana. Alguns afortunados conseguem abandonar o serviço e se preparar para a chegada do Sábado. Na minha terra, o dia universal da alegria é a sexta feira. Quando anoitece, meus conterrâneos (ao menos aqueles que não estão submetidos a lógica nacional socialista de um mercado que não pensa em parar de crescer) se entregam ao prazer de um chopp, um cinema, uma boa pizza ou qualquer outra novidade que rompa a banalidade do cotidiano e ofereça ao homem industrializado, a esperança santa de deixar de existir (como uma engrenagem em uma imensa linha de montagem) e começar realmente a viver.
Curiosamente, para os povos do deserto, o dia de Sábado começa na sexta feira. Isso porque judeus e mulçumanos contam o tempo a partir de um calendário lunar e o começo do dia é justamente no pôr-do-sol e não no nascer. Isso significa que, mesmo sem saber, mesmo de forma inconsciente e curiosamente instintiva, o natalense comemora o Shabat. Sempre que o apelo inexpugnável da sexta feira à tarde o leva a abandonar seus afazeres e aproveitar o tempo para louvar sua própria existência e o fato de que estamos vivos (apesar de tudo) é o Sábado que grita em nós para exigir desse povo, seu quinhãos para exigir desse povo, seu al ar da labuta da vida, com suas dores e seu escandaloso absurdo biologico.ar o que he e rompa a.
Historiadores modernos reconhecem que o culto ao Sábado tem origens mais antigas do que as recomendações bíblicas. Entre os Caldeus já haviam sinais de um dia reservado ao culto aos mortos. Provavelmente, como alerta Maurice-Ruben Hayoun (estudioso de filosofia judaica da idade média) o caráter a um só tempo solene e festivo da festa do Shabat na sexta (pelo calendário solar) à noite remonta a práticas rituais fúnebres das primeiras tribos descendentes de Abraão.
O sétimo dia, abençoado pela leitura bíblica, não é, a despeito das leituras mais ortodoxas (que instituem em um sem número de proibições, como não acender fogo em casa, não mover móveis e não realizar absolutamente nenhum tipo de trabalho, não viajar e não escrever) um dia de martírio. A idéia é que é necessário guardar e lembrar do Shabat para significar que é preciso haver um momento para abandonar os esforços criativos e a luta pela manutenção da existência e sentir prazer.
Por isso, a idéia do culto ao Sábado não é apenas um traço distintivo dos judeus (que os separariam dos cristãos, que param no primeiro dia da semana e dos mulçumanos e param na sexta). Na mística judaica o dia de Sábado é aquele em que se comemora a face feminina de Deus. O casamento do Deus de Israel com a santa Shekinah é representado pelo canto das mulheres judias ao acenderem suas velas na sexta à tarde.
Eu sempre senti no meu coração o apelo do Sábado e sempre entendi, por viver onde vivo a magia de uma sexta à tarde, quando o sol começa a descer e o mundo parece que vai parar para que a gente possa lembrar e guardar o que há de sagrado na vida, longe da maldição biológica desse trabalho que escraviza. A presença desse senso judaico de semana foi tão forte na formação histórica do povo português, e no nordeste isso é particularmente evidente, que até os dias da semana (com exceção do Domingo) retém a marca judaica (dia dois, dia três, dia quarto, dia cinco, dia seis... Sábado!), ao contrário da maioria das línguas européias modernas que trazem os nomes de deuses pagãos ou dos planetas do sistema solar (Freitag, Sonestag, Monday, Wendesday, Mercredi, Mardi, Lunes etc, etc, etc). No judaísmo os dias não tem nome, porque todos os dias são iguais em seu peso e seu cotidiano econômico e biológico. O trabalho dos dias igualha a existência dos homens, faz com que o cotidiano de uma vida de labuta se torne sem forma. Só o Shabat tem sua dignidade reconhecida porque só o dia do prazer e do louvor é um dia realmente sagrado. Os outros são os outros, e só.
Pois saiba que se você também sofre da ansiedade da sexta à tarde, mesmo sem ser judeu, você conhece bem o apelo ancestral do Sábado, esse dia que vem nos libertar da labuta da vida, com suas dores e seu escandaloso absurdo biológico. Para que o tempo e o mundo, com suas exigências e sua secura não exista só para nos destruir.
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