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Conta Jean Pierre Vernant, que as meninas da Ática, região da velha Grécia não podiam se casar, ou seja coabitar sexualmente com um homem, caso não tivessem entre os cinco e os dez anos imitado a ursa. Esse era o chamado “ritual de Brauron” e fazia referência a uma antiga história sobre uma ursa que teria vindo espontaneamente habitar nas redondezas do templo da deusa Ártemis. Reza a lenda que uma menina imprudente teria passado um bom tempo brincando com essa ursa até que, inevitavelmente, teria sofrido um profundo arranhão no rosto. Cego de fúria, o irmão da menina teria ido até o templo e matado a ursa. Desse dia em diante, como reparação pela ofensa à deusa Ártemis (deusa da natureza selvagem), as filhas dos cidadãos atenienses tinham, como regra fundamental, que imitar a ursa, antes de estarem prontas para conviver sexualmente com um homem.
Curioso, não? A imitação do animal selvagem que se domestica e que aceita a convivência com os homens era um dos aspectos do sagrado feminino. A força natural sem controle que se apazigua, que se torna dócil e se submete, para que a união sexual depois da cerimônia de casamento, não se transforme em estupro. A resistência da mulher, sua selvageria, sua insubordinação precisavam ser vencidas e a melhor maneira de realizar isso seria pagando um tributo religioso à deusa virgem da floresta, para a senhora da caça e dos animais que moram nos bosques.
Muitas são as formas que o sagrado feminino toma na história da humanidade. Das velhas imagens de mulheres gordas de fartos seios arredondados latejando de fertilidade, encontradas nos sítios pré-históricos até as imagens de Ìsis, com seu filho Hórus, no colo (que serviu de modelo para a representação cristã de Nossa Senhora com o menino Jesus); todas as facetas possíveis da feminilidade eram objeto de culto, da maternidade à administração do lar; da promiscuidade sexual à e castidade; da sabedoria estratégica à insubordinação selvagem e sem lei.
No monoteísmo judaico, o sagrado feminino, antes tão presente, foi ocultado. O nome da deusa, que deveria aparecer junto aos nomes de Deus, como nas epopéias sumérias que parecem ter servido de base para a formação de parte do livro de Gênesis, foi apagado e sua referência tornou-se indireta, relacionada a figuras como a Shekinah de deus, a rainha do Shabat, a noiva celestial. Uma presença feminina, insinuada como uma sombra ao lado do grande macho divino, Rei do universo.
Quando a Europa se cristianizou, precisou adequar essa base judaica para que seus novos adeptos (celtas, gregos, latinos e germânicos) pudessem encontrar, no meio daquela moral judaica, daquela utopia humanista, algo que tivesse a ver com sua própria cultura. Foi na era dos grandes concílios, a partir do de Nicéia em (325 da era comum) que alguns dos dogmas mais conhecidos do cristianismo começaram a ser formatados.
Nesse tempo, perto do fim do velho mundo antigo, no alvorecer da era medieval, o sagrado feminino teve na Europa o seu deslocamento. O Deus cristão se tornou três: Pai, Filho e Espírito Santo, o triângulo retângulo de Pitágoras (aquele do quinto ano do fundamental). A tríade de Platão que renasce na idade média, carregada para dentro da Igreja do Cristo pelos primeiros teólogos.
Na doutrina oficial, a trindade é um estranho e insondável mistério, que não se explica e que não se entende, mas que tem sua utilidade. Manter uma base pagã, platônica, sobre uma capa de monoteísmo.
Mas a mulher, a deusa, para onde ela foi? O que aconteceu com sua presença sagrada? No final do livro “As Brumas de Avalon”, de Marion Zimmer Bradley, que conta a história do mitológico rei Arthur a partir do ponto de vista das mulheres, aparece uma pista importante.
Morgana (irmã de Arthur) vê uma imagem de Nossa Senhora em um Templo Cristão. O grande mote desse livro gira em torno de como o paganismo celta foi substituído pelo catolicismo e Morgana, que era uma sacerdotisa dessa velha religião (mais conhecida nas bancas de revista e nas lojas de quinquilharias esotéricas com o nome de Wicca) ao olhar a imagem da virgem, se questiona se ali não estaria a presença da Deusa.
O cristianismo popular, não importa o que digam os doutrinadores, não importa quanto esperneiem os teólogos, divinizou Maria. Ela não é apenas o receptáculo de Deus (Theótokos), ela é o quarto elemento. A conexão misteriosa que aparece na trindade, a linha que une os aspectos cindidos da divindade cristã. Mãe de Deus filho, filha de Deus pai, noiva de Deus espírito Santo, Maria é, no cristianismo católico, o que sobrou do sagrado feminino após o colapso do antigo mundo pagão na Europa. Ela retém como a Shekinah judaica, a linha que une nossas crenças à força dos antigos ritos de fertilidade, à memória do tempo em que nós não conhecíamos a palavra “pai” e que nosso pertencimento no mundo dependia da nossa ligação, física, material e cultural, com nossas mães. Shekinah, Ìsis, Ishtar, Gaia, Iemanjá, Maria. Não importa o nome: Ela ainda está entre nós. O sagrado feminino se metamorfoseou e ganhou um disfarce tolerado pela Igreja e que fala fundo na alma dos cristãos católicos nos quatro cantos do planeta, mesmo com a recorrente e incômoda dúvida lançada pela pergunta de Morgana (A fada), no final das Brumas de Avalon: “o que sabe uma virgem das coisas do mundo?”.
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