| O Samba de Sidarta |
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O que significa sofrer? Alguém pode imaginar que sofrer é entristecer, azular-se daquela melancolia que afoga nosso campo de visão, restringindo nosso horizonte, nos fazendo encolher diante de algo que nos assombra e que, boa parte das vezes, não tem uma forma definida. Mas, sofrer também é delirar de alegria. Entorpecer-se com aquela embriaguez sem fim que envolve os maníacos. Saltar com a euforia dos loucos, porque sorrir e chorar são verbos que se completam. Não sei se você concorda comigo, mas a síntese mais perfeita do sofrimento é o samba, porque, o bom samba, tem uma música alegre sobre uma letra triste. O samba sabe que o sofrimento da vida envolve a alegria e a tristeza, porque sofrer é sentir, ser afetado pelo mundo. Estar vivo é estar cercado pelos estímulos que nos levam da melancolia ao delírio, da depressão à mania. Sempre que eu ouço samba eu penso no trágico. Cartola, Nelson Cavaquinho, Lupcinio Rodrigues e até o Adoniran Barbosa (que apesar da vertente cômica, vez ou outra escorrega na tragédia) são os representantes, no Brasil, do espírito trágico, que tanto fascinou os gregos do século V. Antes que você torça a boca e faça cara de “que porra é essa?” eu vou explicar: o trágico é diferente do contemplativo ou do entusiasmado, porque ele retém, em uma mesma obra, a euforia e a melancolia. Assim é o samba: para ser bonito, ele tem que ser triste, para ser completo, ele tem que trazer a alegria na melodia e a tristeza na poesia. Sem tristeza o samba não fica bonito, porque a alegria da música fica incompleta. Sem a melancolia da poesia, o delírio rítmico da melodia do samba não faria sentido. Essa compreensão fundamental da natureza do sofrimento leva o Samba a um estágio estético superior e ensina aos homens uma das nobres verdades do budismo. Diz a tradição que Sidarta, o mais famoso Buda, nasceu aos pés do Himalaia, em um lugarejo de agricultores chamado de Kosala. Filho de uma mulher chamada Mayadevi e do rei Sudodana, aos trinta anos abandonou o palácio de seu pai deixando para trás mulher e filho. Seu objetivo era muito claro: descobrir o sentido da doença, da morte e do sofrimento. Após quase ter morrido de fome, em uma experiência radical de mortificação corporal e ter atravessado os estados de Uttar Pradesh e Bihar, ao norte da Índia, o príncipe Sidarta desenvolveu o chamado “caminho do meio”. Uma via ética, baseada em uma rígida disciplina moral e em uma metodologia de controle mental. No famoso Sermão de Sarmath, Sidarta identificou que o nascimento, a velhice e a doença são aspectos do sofrimento, que tanto é alegria quanto tristeza, porque quando se está alegre também se padece de algo, também se é afetado por algo, também se deseja. Alegria e tristeza são lados reversos da vontade que na mesma medida contém o desejo e a frustração. A idéia central de Sidarta no sermão de Sarmath é a de que o desejo e a ignorância prendem o homem à roda de tristeza e da alegria e que essa prisão constitui o sofrimento. A ignorância de não conhecer a dor; a ignorância de não conhecer a origem da dor; a ignorância de não conhecer a suspensão da dor; a ignorância de não conhecer o caminho que leva a suspensão da dor são causas do sofrimento. A ética budista, ao contrário das éticas gregas, não se constrói a partir de uma leitura de como o mundo funciona ou de uma metafísica que explique a realidade. O pressuposto é de que não devemos perder tempo tentando explicar o mundo e sim, buscar uma forma de responder, com nossa atitude, ao impacto que o sofrimento produz sobre a nossa mente. O budismo, ao contrario das religiões metafísicas do ocidente, identifica a ilusão que causa a dor e, ao invés de tentar buscar o que está “por trás do véu” dessa ilusão, procura simplesmente encontrar meios de se livrar dela. Nesse sentido ela é como o Samba. Mil teses podem ser construídas sobre como o Samba brasileiro recolheu para si o espírito trágico. Podemos falar sobre a união da herança vital africana, travestida no delírio rítmico, com a melancolia do fado português. Podemos especular sobre a bipolaridade essencial do povo brasileiro, acostumado a se lançar sem cerimônia em picos de euforia, para perde-se depois na mais deprimente ressaca. Podemos conversar sobre o carnaval, essa festa de oscilações, que com a mesma velocidade que nos eleva, nos derruba. O fato é que assim como Hölderlin (o poeta alemão), Nietzsche, Schiller e Cartola, lá da Mangueira, Sidarta Gualtama, ao pé do Himalaia, entendeu o significado do espírito trágico que acompanha o homem: a estranha unidade que liga a melancolia e o entusiasmo. Essa é a primeira nobre verdade do Budismo, aquela que fala acerca da natureza da dor. Buscamos a alegria para fugir da tristeza e caímos no círculo que não se interrompe do sofrimento. Não sei se o príncipe Sidarta tocava algum instrumento, não importa se cítara ou cavaquinho, o fato é que talvez, se ele tivesse virado músico, pudesse, ao invés de um sermão para libertar o homem da roda do desejo, ter composto um sambinha como o de Cartola que diz: “quem me vê sorrir/ pensa que estou alegre/ o meu sorriso é por consolação/ porque sei conter/ para ninguém ver/ o pranto do meu coração”. E-mail:
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Site: www.pablocapistrano.com.br
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