Pablo Capistrano \| Santas heresias
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Eu poderia escrever vários artigos como esse para explicar todas as minhas razões, mas, para ser mais rápido e direto eu posso dizer que minha admiração pelo Obama começou com um discurso registrado no youtube e que me foi apresentado pelo Reverendo Jorge Aquino, da Igreja Anglicana. Obama dizia que os EUA não eram mais uma nação cristã. Que eram sim uma nação mulçumana, judaica, budista, cristã e também uma nação de ateus. E ele se perguntava depois, mesmo se os EUA fossem uma nação exclusivamente cristã, qual cristianismo eles professariam?

O pensador alemão, Peter Sloderdijk afirma que a Europa sofre com uma espécie de nostalgia do império romano. Um sentimento de saudade de um tempo de unidade, que levou o mundo mediterrâneo a um período de estabilidade política. Se há no ocidente, hoje, uma instituição que retém o que sobrou dessa nostalgia essa é a Igreja Católica. A ligação íntima entre a Igreja e o Império Romano fez com que essa ansiedade de unidade, essa necessidade de permanência, ditasse um esforço monumental de construção de uma doutrina única para os cristãos.

A pluralidade dos primeiros séculos da era comum, marcada por muitos cristianismos, começou a ser desmontada quando em 325, Constantino (imperador romano) convocou um grande concílio de bispos em Nicéia, cenário de uma das mais decisivas batalhas teóricas sobre a herança de Jesus. Os bispos ocidentais, católicos, se confrontaram com os arianistas, em sua maioria, orientais. Adeptos da doutrina do bispo Ário (provavelmente nascido na Líbia entre 256 e 260, e seguidor de Luciano de Antioquia) entendiam que o Deus Pai era um ser único e indivisível, absoluto e incorruptível. Jesus, por sua vez, não poderia ter esses atributos porque sofreu e morreu na cruz. Dessa forma, ou a crucificação e a morte de Jesus seriam uma fraude, ou Jesus não poderia ser Deus, posto que um ser absoluto e incorruptível não se submeteria ao sofrimento e a dor.

Ário era conhecido como um homem santo por todo norte da África e pelo oriente médio. Seus longos jejuns e suas mortificações intensas eram motivo de admiração entre cristãos. Seus seguidores não aceitavam a idéia de uma consubstanciação (homousios) entre Deus Filho e Deus Pai. Essa era uma idéia que não faz muito sentido no mundo oriental, especialmente entre os milhares de judeus convertidos ao cristianismo nos primeiros séculos. Mas, para os ocidentais europeus, pagãos recém convertidos, não havia problema em imaginar um deus tomando a forma de um homem e sofrendo como os homens, porque, no seu mundo pagão, nos poemas de Homero e Hesíodo, os deuses andavam entre os homens e viviam com eles, padecendo das mesmas paixões.

No final, o cristianismo professado por Damásio bispo de Roma e Pedro, bispo de Alexandria venceu o concílio. Ário teve sua excomunhão decretada e reafirmada depois no concilio de Constantinopla (381) que indicou: “é necessário conservar a fé professada em Nicéia e rejeitar as diversas heresias que apareceram recentemente.”

Rejeitar essas heresias implicava criar uma doutrina unificada para o cristianismo, uma doutrina que indicasse que Jesus era: “o filho de Deus, único gerado do Pai, Deus de Deus, luz de luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não criado, consubstancial ao Pai”. Depois de Nicéia muitas foram as histórias de combate às heresias cristãs, na busca constante pela satisfação dessa ansiedade de unidade, dessa inquietação pela permanência. Quando Simão de Montford massacrou os albigenses gnósticos que professavam a heresia cátara no sudoeste da França, ou quando Tomás de Torquemada (1420 – 1498) e Francisco Jimenez de Cisneros (1436 – 1517) implantaram o terror na Espanha de Isabel de Castela e Fernando de Aragão, essa ansiedade por uniformidade doutrinária que implicava também a busca de uma unidade política, ganhou sua faceta mais sinistra.

Entre 02 de Janeiro e 04 de Novembro de 1481, 289 Cristão-novos (judeus recém batizados e convertidos ao catolicismo) foram queimados em Valença e Castela, pelo tribunal da inquisição.  Até o fim daquele ano, dois mil foram mortos em Cádis e Sevilha. Na península ibérica a unidade doutrinária da igreja, implicava também uma unidade nacional e étnica, a busca por uma pureza racial e religiosa para uma Espanha e um Portugal unificados, livres da influência moura e judaica. Unido no credo cristão de Nicéia, um tribunal que havia sido construído para fritar bruxas, acabou se tornando, na península ibérica um mecanismo de unidade nacional a partir de uma política de terror.

É difícil mensurar a influência que a inquisição produziu no mundo português e hispânico. Existem especulações sobre traços culturais de comunidades descendentes de cristãos-novos (judeus e mouros batizados no catolicismo para fugir à influência do tribunal do Santo Oficio), presentes inclusive no interior do Rio Grande do Norte e da Paraíba. Talvez uma certa desconfiança sertaneja, um certo medo irracional de expor a própria opinião (presente na forma dissimulada e cuidadosa com que alguns intelectuais costumam a expor suas idéias), uma incapacidade de desagradar o outro, uma compulsão de hospitalidade, humildade e subserviência, ou mesmo uma estranha saudade de uma parcela significativa de nossa alma oriental, arrancada pelo impacto psicológico do medo. Por isso que eu gosto do discurso de Obama e de sua mensagem de diversidade, mesmo sabendo que muitas vezes, o apelo sedutor da uniformidade acaba vencendo e sepultando o que sobra da nossa tolerância.
 
 
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