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Semele era uma bela mortal que um dia recebeu a visita de um deus e que, após um longo momento de intimidade com ele, engravidou. O deus, no entanto, era casado com uma deusa ciumenta, que, transtornada com as escapulidas sexuais de seu esposo celestial, costumava a correr atrás de qualquer rabo de saia que aparecesse. A tal esposa do deus, induziu a pobre Semele a solicitar que seu amante divino se mostrasse a ela em todo o seu esplendor, na sua “forma original”.
Ao ver a forma natural do amado, Semele foi imediatamente incinerada. O deus, para evitar uma desgraça maior, reteve na própria coxa o filho que a pobre mulher carregava no ventre. Quando o menino nasceu (não me pergunte por qual orifício ele saiu que eu não saberia responder) o pai celestial deu-o para ser criado por uma tia. Mas, vocês sabem o que uma mulher traída é capaz de fazer, não é? A esposa do deus, sabendo da existência do filho de seu marido com a “sem vergonha” da Semele, perseguiu a pobre criança, até torná-la louca. O menino, já na adolescência, começou a mostrar os sinais de seu distúrbio, e vagou pela terra muitos anos, seriamente perturbado (também, com um pré-natal desses, quem é que fica bom do juízo?).
Algumas versões dessa velha história afirmam que esse pobre jovem, quando estava viajando pela Frigia (região onde hoje ficam as terras da Anatólia) foi morto e esquartejado, que seus pedaços teriam sido espalhados pelos campos em uma época de primavera e que ele teria renascido, quando Cibele (uma deusa da Ásia Menor) uniu seus pedaços, fazendo-o ressurgir como um homem novo, curado de sua loucura, e pronto para exigir o seu lugar de direito no reino celestial de seu pai e se tornar um deus renascido.
Dionísio (nascido duas vezes), um dos deuses do panteão pagão dos velhos gregos, é mais um dos personagens que enfrentaram a morte e renasceram. Osíris, entre os Egípcios, foi esquartejado por seu irmão Set (associado ao Porco – agora você entendeu porque carne de porco é “carregada” não é?) e teve seu corpo reconstruído pelo esforço de sua esposa Ìsis. Entre Persas e Hindus, havia também a figura de mitra, que teria nascido de uma virgem no dia 25 de Dezembro, que teria sido morto e renascido, na forma do disco solar, ou algo que o valha.
Estranho como as histórias de morte e renascimento estão presentes em quase todas as culturas. Esse é provavelmente mais um indício de que, na origem haveria uma única e mesma velha religião xamanística que desdobrou-se no tempo, ganhado variações em regiões diversas do globo, dando origem as formas de religiosidade que você conhece hoje.
Isso porque há da Sibéria ao Crato, dos Andes à terra dos aborígines australianos, da África subsaariana à Hélade grega, registros de práticas religiosas que envolvem a idéia uma viagem ao mundo dos mortos, entre xamãs e feiticeiros. Em diversas culturas os xamãs passam por estados de morte simbólica e de renascimento. Em alguns lugares se torna xamã quem quase morreu devido a um estado comatoso ou a uma doença desconhecida. As modernas experiências de “quase-morte” registradas e estudadas pelos profissionais da área da saúde em diversas universidades mundo afora, assemelham-se, em muitos casos, a jornada dos xamãs, tal qual estão descritas nos relatos antropológicos.
Alguns sentem a presença de vultos, descrevendo que seus leitos hospitalares ficavam sempre lotados de gente, quando na verdade poucas pessoas apareciam por vez. Outros, mais próximos da morte, relatam a sensação de flutuar sobre o próprio corpo e depois mergulhar em um túnel que o leva em direção a uma luz branca. Esses relatos são registrados em diversas comunidades, que mesmo sem nenhum aparato tecnológico de suporte médico, sem nenhuma UTI nem maquininha alguma de ressucitamento chegam ao limite e retornam. A viagem do homem entre os mundos da vida e da morte, a descida ao mundo supterraneo dos mortos e o retorno à superfície (renascido e renovado) é uma experiência xamânica fundamental, que se repete entre os Saliches da América do Norte (que constroem uma canoa especial para a viagem da rapaziada), entre os aldeões nepaleses que relatam viagens à Lua (que é o reino dos mortos), entre os tchuktchi da Sibéria que descrevem, nesse estado de quase morte, ascensões ao mundo celestial.
Não importa se o mundo dos mortos é em cima ou em baixo, a luta contra a doença, a vitória sobre a morte, a transição entre mundos, as viagens da consciência em direção à universos expandidos, o transe, a negociação com espíritos, a luta contra as forças e inimigos que buscam desestabilizar a saúde e a ordem dos membros da tribo; tudo isso conecta, o mundo moderno ao mundo antigo, em uma mesma linha que nos liga com uma velha força ancestral, que, de um modo ou de outro, caminha em nosso sangue, compõe a estrutura de nossos ossos, configura nossos órgãos internos e nos assombra quando sonhamos.
Você, não importa qual a sua religião, que experimenta de forma real ou simbólica, a experiência de um deus que morre e ressuscita nunca se esqueça que essa sua experiência carrega o peso de um tempo que se perde na lembrança dos homens e que se desfoca em uma névoa de épocas e de memórias antigas. Morrer e renascer faz parte de uma experiência religiosa fundamental que, a despeito de aparecer na televisão nas pregações eletrônicas dos xamãs pós-modernos, acompanha o homem desde sua aurora, porque, o tempo passa, mas a gente não se desloca para muito longe da nossa fonte. Afinal, como cantou uma vez Hölderlin, dificilmente, aquele que habita perto da origem, abandona o lugar.
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