| As Quatro Nobres Verdades |
|
|
| Escrito por Pablo Capistrano | ||||||||
|
Quando Scott Friztgerald escreveu “O Curioso Caso de Benjamin Button” (que agora virou filme) talvez ele não estivesse pensando em uma história de um homem que nasce velho, com oitenta anos, e vai ficando jovem a medida que o tempo passa, até virar um bebê. Talvez ele estivesse pensando em uma história de amor, na qual um homem e uma mulher se desencontram, justamente porque a linha do tempo caminha, para eles, em sentidos opostos. Quem nunca sentiu isso? Quem nunca acreditou que o amor se perdeu em uma história qualquer que um número sem fim de vezes acontece com homens e mulheres, justamente porque o tempo de um, não anda de acordo com o tempo do outro? O amor topa nos relógios. Ele muitas vezes não obedece ao tempo das pessoas nem respeita linha que o planejamento do mundo costuma a impor a quem participa da vida. Talvez seja por isso que o amor é tão “literalizavel”. Talvez seja por isso que seus paradoxos e suas contradições costumem a oferecer aos poetas um material farto, para lidar com os sofrimentos humanos. Há uma pequena história zen budista que fala um pouco sobre as ansiedades do amor carnal e do desejo do sexo. Um dia, dois monges que haviam feito perante um voto de nunca tocar em uma mulher seguiam por um caminho e encontraram uma bela jovem na beira de um rio. Ela carregava alguns pacotes e, pela força da correnteza, julgava ser impossível atravessar sozinha para a outra margem. Perturbada, ela suplicou que os monges a carregassem até o outro lado. Sem titubear, um dos dois monges colocou a mulher no cangote e atravessou com ela o rio caudaloso, diante do olhar escandalizado do seu colega, que permaneceu em silêncio o resto da viagem, chocado com aquela atitude, sem conseguir esquecer aquela imagem lasciva e promíscua. Quando chegaram ao monastério, o jovem monge, que havia observado seu companheiro de peregrinação tocar aquela jovem mulher, rompendo seu voto sagrado de contenção sem a mínima cerimônia, correu para dedurar o amigo ao mestre. Depois que ele contou a história o mestre sabiamente pegou sua vara (mais significativo instrumento pedagógico das histórias zens) e encheu o discípulo caguete de porrada. Depois de muito apanhar, sem entender o motivo de tanta violência, o discípulo perguntou ao mestre porque estava tomando aquela surra. O mestre disse da altura de sua sabedoria: Tenha vergonha! Seu cagueta safado... (Ops, ops, não! Desculpe! não é isso, a história é outra)... o mestre disse da altura de sua sabedoria: “seu amigo carregou aquela mulher pelo rio e a deixou na outra margem, você vai carrega-la a vida toda”. Diz a Theravada, a tradição dos antigos do budismo Hinayâna (o pequeno veículo), muito comum no Sudeste Asiático, que o grande exercício do budismo é o desapego. Quando Zhu Daguan, no texto “Memórias sobre os costumes do Camboja”, atravessou o império Angkor entre 1296 e 1297, espantou-se com monges que raspavam a cabeça, andavam descalços vestindo longas túnicas amarelas e saiam em busca de esmolas pelas ruas das cidades. As chamadas quatro nobres verdades budistas trabalham todas com o sentido de desapego. Elas estabelecem: (1) tudo é submetido a um fluxo contínuo. A dor vem da falta de domínio de si mesmo e do apego ao transitório; (2) O Eu não é imutável (“tu não és nem a criança, que foste, nem o ancião que serás”), concepção que afasta o budismo de sua base bramânica (hiduista); (3) a extinção da dor através da eliminação do desejo e da ignorância (reprimir ou refutar o desejo leva a uma nova dor, deve-se deixar que o desejo venha e esperar que ele desapareça); (4) a busca da disciplina moral é base de libertação da dor. A partir dessas “quatro nobre verdades” o sistema ético budista produz regras de conduta como: (a) não matar; (b) não se apoderar dos bens dos outros; (c) não se inebriar (pode tomar uma, o problema é encher a cara – apesar de haver controvérsias quanto ao significado de “inebriar” e de se saber quando a cara está realmente cheia); (d) não mentir. Isso se resumiria no caminho óctuplo do Senhor Buda “compreensão justa, pensamento justo, palavra justa, ação justa, meio de existência justo, esforço justo, atenção justa e concentração justa”. O que o nosso amigo caguete a da historinha zen não entendeu, é que o problema do desejo não é o seu objeto. Não é aquilo que nós amamos que nos perturba, mas sim a busca por uma permanência que não se completa nunca. Como afirma um dos inumeráveis sutras budistas: “o nascimento é dor, a velhice é dor, a morte é dor, estar unido ao que se ama é dor, estar separado do que se ama é dor, não realizar o que se deseja é dor”. Talvez o Friztgerald, quando escreveu “O Curioso Caso de Benjamim Button” realmente estivesse em busca de encontrar esse ponto onde o amor se torna dor. Esse ponto de desencontro que costuma a afastar os amantes. Nesse sentido, o filme de David Fincher lembra Doutor Jivago de David Lean, com uma divergência apenas: enquanto em Doutor Jivago, o que separa os amantes é o imenso espaço geográfico de uma Mãe Rússia, cortada pelas conturbações revolucionarias pós-1917, em Benjamim Button, o desencontro do amor tem a ver com o tempo. Esse tempo, que é nosso professor. Esse tempo, que com sua pedagogia da impermanência nos ensina sempre, a cultivar arte budista do desapego. Uma arte que implica a busca de uma disciplina interior que permita não desejar ter para si, aquilo que não se pode reter. Como o amor que nos possui e nos abandona, em uma constante metamorfose. O amor que só permanece quando consegue ser todo dia, suavemente divergente, delicadamente diferente daquilo que foi no dia anterior.
E-mail: Este endereço de e-mail está protegido contra SpamBots. Você precisa ter o JavaScript habilitado para vê-lo. Site: www.pablocapistrano.com.br
3.25 Copyright (C) 2007 Alain Georgette / Copyright (C) 2006 Frantisek Hliva. All rights reserved."
|