Pablo Capistrano \| A pequena morte.
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A pequena morte. Imprimir E-mail

 

Cometi um perigoso erro de cálculo esses dias. Pensei que não iria adoecer. Eu sei, eu sei... a confiança excessiva no próprio sistema imunológico é um dos pecados que a arrogância da juventude ainda insiste em manter vivo em mim.

Por certa quantidade de dias acreditei realmente que estar doente era uma questão de opção. Esse é um erro que muita gente comete na vida, especialmente os jovens. Nessa época de epidemias de dengue e de viroses estranhas e sem nome que ajudam a lotar as urgências dos hospitais, pensar assim pode ser fatal. Só agora, depois de 48 horas de febre, de dor por todo corpo e de uma sensação de prostração, eu consigo um intervalo nessa minha agonia para escrever algo sobre isso que toma conta do meu corpo e que polui o meu entendimento.

Estar doente é como experimentar uma pequena morte. Se morrer é perder o campo de possibilidades, adoecer é estreitar as liberdades do corpo e experimentar em graus distintos, a sensação de que estamos limitados. Minhas pernas não me deixam andar direito, meus olhos não permitem que eu consiga enxergar bem as palavras que digito no brilho radioativo dessa tela de computador.  Minha boca seca e a febre que faz com que minhas têmporas latejem, me impedem de pensar, algo que, em situações normais de temperatura e pressão, faço sem muitos problemas e com relativo sucesso.

Se eu vivesse na pré-história, em alguma paisagem árida da aurora da humanidade, estaria em uma situação muito difícil. Permanecer na terra, muito provavelmente, seria mais uma questão de sorte do que de mérito. Por isso, a doença, junto com a morte e o medo do caos natural é uma das forças que moveu o homem antigo em direção à religião. A grande maioria das sociedades chamadas de “tradicionais” (sociedades de coletores e caçadores, com uma agricultura rudimentar) apresentam em sua religiosidade estrutural semelhanças muito curiosas. Nos desertos australianos, na floresta amazônica, na áfrica subsaariana, nas montanhas do Peru, no sul da Índia, ou nas estepes geladas da Sibéria, a base das antigas religiões é muito semelhante.

Isso indica uma forte probabilidade de que todos os tipos de experiência religiosa sejam variações a partir de um conjunto mais ou menos semelhante de práticas, que giravam em torno da morte, da doença, do controle dos ciclos naturais e do domínio das forças vivas que circundavam o homem na aurora de sua aventura.

Acho que preciso de um médico. Do modo como as coisas estão ocorrendo é provável que eu não consiga terminar esse artigo hoje e tenha que voltar para cama mais cedo, me enrolar com um lençol e gemer até cair no sono. Na aurora do homem não haviam “médicos” no sentido moderno do termo. Quem ocupava a função que hoje os especialistas de jaleco branco realizam, eram os Xamãs. Esse é um termo que vem da língua evenca, falada por um pequeno grupo de caçadores e pastores de rena da etnia tungu, que habitam as estepes geladas da Sibéria. Praticamente todas as culturas humanas têm sua versão do Xamã, que não se reduz a um médico. O Xamã é um misto de sacerdote, médico, farmacêutico, psicólogo e líder político, músico e artista multimídia. Algo muito comum em sociedades que não costumavam a separar as atividades em compartimentos e não criavam especialistas.

Os xamãs negociavam com os espíritos, tantos dos ancestrais quanto da natureza (na antiga religião, tudo era vivo e tudo tinha uma boa dose de sagrado, animais, plantas, rios e montanhas consistiam em um conjunto de forças que fazia parte de um mesmo cosmos). Eram eles que atuavam quando alguém adoecia. Seu objetivo era o diagnosticar a origem das enfermidades, que geralmente eram vistas como conseqüência de um ataque espiritual ou algo do tipo.

Na maioria das vezes o próprio Xamã era alguém que tinha experimentado uma doença. Na base da maioria das mitologias dos povos tradicionais, quer na gelada Sibéria, nos desertos andinos ou na Amazônia, aqueles que curavam já haviam sido um dia, possuídos pela mesma doença que buscavam combater. Há inúmeros relatos de antropólogos que mostram que Xamãs e Pajés ganhavam seus poderes e eram iniciados no uso das ervas e das plantas mágicas, após experimentarem a iminência da morte e conseguirem emergir de doenças aparentemente fatais. A idéia parece interessante. Para que você possa curar alguém é preciso que antes, você mesmo, tenha experimentado alguma experiência de cura. Afinal, como é possível vender a saúde se você mesmo não é saudável? Não parece coerente que alguém, em um consultório médico, prescreva para um paciente uma conduta que ele mesmo (o médico) não pratique. O fato é que a doença ensina. Ela pode ser uma ferramenta de dor e de sofrimento, pode ser um instrumento de aflição e perturbação, ela te limita e te oferece a sensação de uma pequena morte, mas também pode te instruir e te transformar em uma pessoa diferente.

Quer seja uma simples gripe ou um Câncer a doença exige que o doente repense sua experiência na terra e redimensione sua própria vida e seu cotidiano. Vivenciar e vencer uma doença é uma experiência psicológica única, que envolve a consciência dos próprios limites humanos e da estranha condição fronteiriça em que vivemos. Como dizia o Rabi Moshe Leib: “Esse mundo é como caminhar sobre o fio de uma espada. De um lado está o mundo dos mortos, do outro o mundo dos mortos. A vida está no meio”.


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