Pablo Capistrano \| O povo que matou a morte
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O povo que matou a morte Imprimir E-mail
Nelson Rodrigues costumava a repetir em suas crônicas que ainda manteria a sua fé na humanidade enquanto, ao lado de um cadáver estendido na rua, surgisse, misteriosa e solidariamente, uma vela para guardar o morto.

Essa solidariedade na morte tem significados muito profundos e costuma a ser um dos mais evidentes sinais de humanidade. Nelson comentava que sempre que alguém caia morto nas ruas do Rio de Janeiro, quer por atropelamento ou por outra pequena catástrofe privada, surgia um desconhecido com uma vela na mão para iluminar o passamento do defunto.
Esse sinal sempre indicou a reverência dos vivos em relação aos limites da morte. Todas as culturas têm rituais de sacralização e de respeito pelos cadáveres e isso é sinal de que as fronteiras da temporalidade são percebidas pelas pessoas e que os grupos humanos, de um modo ou de outro, dão à vida um significado especial. A vela, ao lado do corpo dos atropelados no Rio dos anos de 1950, nos leva a tempos arcaicos como aqueles descritos por Homero na Ilíada.

Existem passagens comoventes na literatura ocidental que mostram o peso do respeito aos cadáveres nas culturas humanas. Príamo, rei de Tróia, humilhando-se aos pés de Aquiles (assassino de Heitor) para que este devolvesse o corpo do seu filho. Antígona desobedecendo ao édito de Creonte e enfrentando a morte para poder cumprir a regra de enterrar o corpo do irmão. O almirante ateniense (não me recordo agora seu nome) que, conforme a descrição de Tulcides na História da Guerra do Peloponeso, foi executado após não ter permitido aos inimigos espartanos recolherem os corpos de seus mortos.

O respeito pelo corpo do morto é uma marca de fronteira, um limite poderoso entre o mundo que nós conhecemos e o abismo de incerteza que se avizinha de cada um de nós quando a morte se faz presente. Para um indivíduo, cruzar essa fronteira pode ser sinal de loucura, mas, quando uma sociedade, uma tribo, um grupo humano, cruza a fronteira da morte e do respeito pelo corpo dos defuntos então o sinal é de uma inquietante decadência.

Há pouco tempo uma imagem chocou parte do Brasil: turistas batiam fotos de uma paisagem carioca e nem se incomodavam que um saco plástico contendo um cadáver aparecesse no enquadramento. Não havia vela perto do morto. Aquela solidariedade metafísica era apenas memória no quadro lírico dos velhos cronistas. Havia um saco plástico envolvendo o defunto, isolando sua imagem dos passantes que o confundiam com um monte de lixo.

É comum que em tempos de guerra ou de grandes mortandades naturais os cadáveres não sejam tratados dignamente, mas em tempos de paz e de estabilidade ambiental o que justificaria um desprezo tão evidente pelos corpos dos mortos?
Nossa cultura cruzou algumas fronteiras nesses últimos séculos. Mergulhamos na estrutura profunda das forças da matéria e desempacotamos as energias ocultas da terra. Armazenamos, direcionamos, processamos e instrumentalizamos essas energias e os mistérios antigos dos velhos deuses se calaram lentamente. Hoje, até aqueles que se dizem crentes transformam Deus em um corretor de automóveis importados e estão boiando nesse vazio ontológico.

É difícil encontrar significado na morte porque não temos mais aquela força poética para emprestar algum tipo de significado para a vida. Um cadáver é só um punhado de carne em decomposição por isso pode ser esquartejado, desossado, jogado aos cães, concretado embaixo de algum piso, queimado ou embalado em plástico e deixado junto com o lixo em alguma paisagem de uma grande cidade. O caso do goleiro Bruno é sintomático desse estado de displicência para com os significados da nossa própria humanidade. O mais terrível nessa história sinistra é que ela não é um caso isolado. Parece que está passando o momento de reaprender as lições dos antigos para que vida e morte não continuem a se dissolver nesse balé sinistro de um tempo que está apagando os sinais de sua própria humanidade.

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