Pablo Capistrano \| O Jesus mulçumano
Pablo Capistrano \| O Jesus mulçumano
O Jesus mulçumano Imprimir E-mail
Escrito por Pablo Capistrano   

Não sei se você já pensou nisso, mas toda imagem gravada na memória coletiva, tem uma história. Algumas dessas imagens, no entanto, são tão significativas, que causam a falsa impressão de que são eternas. A imagem de Che Guevara na caixa amplificada da banda Rage Against the Machine, por exemplo, redimensionou a famosa foto de Alberto Korda, e a catapultou no cenário underground norte americano, tornando-a um cult entre os descolados nos anos noventa. A música, aliás, foi no século passado um poderoso veículo de disseminação de imagens, que diga o Bob Marley, que teve seu rosto canonizado em camisetas a partir da foto da capa do seu disco Kaya (1978). No mundo das celebridades a arte se torna parceira na imortalidade da imagem e o artista acaba muitas vezes usurpando a fama do retratado para, ele mesmo se canonizar, como, por exemplo, Andy Warhol, que violentou a foto de Marylin Monroe, produzindo a mais representativa imagem Pop.

Muitos podem ser os exemplos, mas, com a devida licença comparativa, nenhuma imagem é mais significativa no ocidente do que a de Jesus. Chê Guevara, Bob Marley e Marylin Monroe que me perdoem, mas a figura mais fashion da iconografia ocidental é mesmo Jesus. Dos famosos afrescos de Giotto na Capela Arena, em Pádua, pintados entre 1303 e 1305 da era comum à herética pintura de James Ensor, intitulada O Ingresso de Cristo em Bruxelas de 1889, Jesus foi amplamente representado na arte ocidental. Talvez por isso, por essa vinculação tão estreita com a iconografia européia, o Jesus preferido da cristandade tenha sido o de um caucasóide de longos cabelos claros e plácidos olhos azuis.
 
Imagine qual não seria o estranhamento se um cristão se deparasse, por exemplo, com a imagem que faz parte das miniaturas do livro Khamesh (1665-1667), do poeta persa Nizami. Na gravura intitulada “Jesus e o cachorro morto” aparece um homem montado em um cavalo, diante de três outras pessoas que estão ao redor de um cachorro preto. Esse homem veste uma túnica amarelo-ocre e usa um longo turbante branco. Ao redor da sua cabeça levanta-se um fogo místico que denota a sua condição especial. Tirando a barba, não há absolutamente nada na imagem desse homem que dê a um cristão ocidental, um sinal, um indício de que ali se trata de Jesus filho de José.
O estranhamento causado pelo contato com essa imagem, deve ser o mesmo que toma conta dos cristãos ao conhecerem mais a fundo o Jesus mulçumano. No Corão o profeta Jesus tem um status especial. Ali ele aparece como um dos mais importantes profetas do Islã junto de Adão, Davi, Abraão e Moisés. Todos eles seriam, na leitura islâmica, homens que teriam tido um contato aprofundado com Alá e que estariam preparando terreno para a revelação definitiva de Maomé. Os mulçumanos têm, inclusive, um evangelho todo particular, que contém inúmeros provérbios que vão desde referências ao apocalipse, até histórias ascéticas que versam sobre “pobreza, humildade, silêncio e paciência”. Boa parte das parábolas da versão mulçumana do evangelho derivam do Sermão da Montanha, mas existem algumas diferenças significativas entre o profeta Jesus e o “Senhor Jesus” dos cristãos (assim como deve haver muitas em relação ao “Rabino Jesus” dos Judeus).
 
Nos evangelhos mulçumanos Jesus anuncia sem titubear: “Abençoado é aquele que lê o Corão e faz o que nele está” (em outras versões aparece: “Abençoado é aquele a quem Deus ensinou o Seu Livro”). O fato é que o Islã nasceu em um tempo e um espaço no qual a figura de Jesus era muito popular. Não sei se você sabe, mas durante muito tempo, principalmente os primeiros trezentos ou quatrocentos anos da era comum, a grande maioria dos adeptos do cristianismo eram orientais. Na Síria, no Egito, no Iraque, boa parte dos convertidos ao islamismo eram cristãos. Assim, todo um conjunto de crenças e histórias populares derivadas da tradição oral ou da multidão de evangelhos apócrifos que circulavam no oriente acabou fundida na construção da imagem desse profeta, que anda de cavalo e usa turbante.
Para os mulçumanos o mais importante da história de Jesus não é sua morte e sua crucificação. Eles não acreditam que ele tenha sido crucificado (essa teria sido uma das distorções que o cristianismo produziu para aproximar o profeta Jesus dos deuses greco-romano que morrem e renascem e na verdade o mulçumano jura de pé junto que alguém foi crucificado no lugar de Jesus para enganar as autoridades romanas). O importante mesmo é o nascimento, dentro de uma caverna (não há manjedoura na versão mulçumana) no meio do deserto, apenas com Maria e um anjo ajudando no parto.
 
Sei que você vai dizer que eu sou um homem sem fé, mas eu acho que, se a imagem de Jesus sobreviver ao próximo milênio, é muito provável que ela seja bem diferente da que temos hoje e, quem sabe, tenha que concorrer com as imagens de alguns desses candidatos a santo pós-modernos como Che Guevara, Bob Marley ou Marilyn. Se o cristianismo quiser durar até o dia do juízo vai ter de se reinventar para acompanhar os movimentos do tempo e a imagem de Jesus com certeza vai mudar junto. Isso porque é bom que a gente nunca se esqueça que, na maioria das vezes, uma imagem diz mais sobre quem a produz do que sobre quem ela retrata.

 

E-mail: Este endereço de e-mail está protegido contra SpamBots. Você precisa ter o JavaScript habilitado para vê-lo.

Site: www.pablocapistrano.com.br

 

Comentários
Adicionar
Escrever comentário
Nome:
Email:
 
Título:
 

3.25 Copyright (C) 2007 Alain Georgette / Copyright (C) 2006 Frantisek Hliva. All rights reserved."

 

COLUNISTAS

Adenauer Novaes
Décio Iandoli
Frederico Menezes
     
José Medrado
José Nicanor
Kau Mascarenhas
     
Pablo Capistrano
Ribamar Tourinho
Roberto Lúcio
     
Robson Pinheiro
Adms Auni  

LOGIN

BLOGS

Blog do José Medrado

Kau Mascarenhas

Blog do Quico

Blog Djalma Argolo

Blog Dr. Décio

Blog - Adenáuer Novaes

MENSAGENS

Portal Kids