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A escola do ressentimento |
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Em 1949, Louis Armstrong realizou um dos seus maiores sonhos, desfilar como Rei Zulu no Social Aid and Plesure Club durante o Mardi Gras em New Orleans. Para as novas gerações de intelectuais afrodescendentes aquela era uma imagem bizarra.
Armstrong com a cara pintada de branco, vestindo uma fantasia de chefe tribal africano durante o mais famoso carnaval do país não parecia ser uma imagem condizente com algum tipo qualquer de dignidade racial proposta pelos movimentos de direitos civis. Mas Armstrong não dava a mínima. Para ele era uma honra estar ali. O problema é o que veio depois.
Louis havia preparado um show para apresentar após do desfile da mais antiga e atuante associação de luta pelos direitos dos negros nos EUA. O problema é que ele iria subir ao palco com Jack Teagarden, um trompetista branco. Foi justamente por isso que o Show foi cancelado. As lideranças na luta pela igualdade racial naquela America do pós guerra, ao menos em Nova Orleans, não pareciam achar adequado que, na maternidade do Jazz, um trompetista branco subisse ao palco junto com um ícone da música negra como era o velho Louis.
Armstrong ficou arrasado. Sua magoa para com sua terra natal foi tão profunda que ele deixou expressa a sua vontade de não ser enterrado em New Orleans. Ele chegou a comentar: “Não me importa de nunca mais ver aquela cidade. O Jazz nasceu nela e eu me lembro de quando não era crime que homens de qualquer cor se unissem para tocar”.
Há um risco em se assumir lutas políticas por causas justas.
Combater o racismo é um imperativo moral da humanidade. A ideia de raça é tão danosa e perigosa quanto a de guerra justa, superioridade cultural ou da existência do mal. Este um conceito que pode ser usado para justificar enormes calamidades humanas. O problema é quando o combate justo contra o racismo se torna em um tipo pernicioso de ressentimento.
Harold Bloom já havia entendido esses riscos quando publicou O Cânone Ocidental, nos anos de 1990. Ele havia se insurgido contra um tipo de movimento nos estudos literários norte americanos que chamou de “Escola do Ressentimento”. Era o tipo de leitura que buscava reduzir a importância literária de Shakespeare por ele ser racista.
O próprio Bloom (um dos maiores intelectuais judeus da contemporaneidade) reconhecia esse racismo quando dizia que Shakespeare (em O Mercador de Veneza) “parecia me odiar”. A despeito dessa evidência (a do antissemitismo de Shakespeare na peça citada) Bloom gemia de dor ao imaginar que nas escolas públicas norte americanas fosse dado o mesmo tratamento a “Hamlet” e “A Cabana do Pai Tomás”, simplesmente pelo fato da segunda obra ser mais “politicamente correta”.
O que Bloom parecia estar pressentindo era uma ameaça aos estudos literários, uma sombra que se estendia a partir dos chamados “estudos culturais” que poderia esvaziar a literatura de si mesma e reduzi-la a um apêndice antropológico de críticos e professores que liam livros não pela contribuição desses textos ao cânone literário, mas sim do seu ajuste a determinadas concepções ideológicas.
A literatura passava então a ser vista como um instrumento da política e a importância de uma obra deveria estar subordinada a sua utilidade na construção de uma determinada imagem de sociedade pensada por grupos políticos específicos.
A discussão sobre o parecer do Conselho Nacional de Educação (CNE) que estabelece que o livro As Caçadas de Pedrinho de Monteiro Lobato só seja distribuído nas escolas públicas brasileiras com uma nota sobre “estudos raciais e críticos que discutam a presença de estereótipos raciais na literatura”, mostra que talvez, para a infelicidade de nossa crítica literária e do futuro das aulas de literatura que a escola do ressentimento possa estar definitivamente cavando suas trincheiras no coração dos brasileiros.
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Site: www.pablocapistrano.com.br
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