| Como se fossem renascer |
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Nos anos de 1980 do século passado, Alain Danielou publicou um livro chamado Shiva e Dionísio. A tese fundamental do livro é a que existe uma ligação entre os cultos de Shiva, na Índia e os cultos a Dionísio na antiga Grécia. Essa ligação faz com que Shiva e Dionísio tenham sido em eras arcaicas a mesma figura. Existe uma história na Índia sobre um rei que se recusou a dar a mão de sua filha em casamento ao deus Shiva. Ele teria dito que não iria querer como genro uma figura que dançava nu, que era sexualmente ambíguo e que, de quebra, consumia imoderadamente uma bebida psicotrópica. O soma é uma bebida antiga, que segundo alguns ainda pode ser encontrada em lugares ao norte do Paquistão e que fazia parte da liturgia dos primeiros cultos ao deus Shiva. Segundo a tradição mitológica, a filha desse rei teria se suicidado e o próprio rei (que havia negado a Shiva, seu caráter divino) teria tido sua cabeça cortada. Qualquer semelhança com a peça As Bacantes de Eurípedes não é uma simples coincidência. O que liga os cultos desses dois deuses, além é claro, da hipótese sempre controversa da invasão de povos Indo-europeus no vale do Ganges, é o fato de que seus cultos giram em torno de velhas religiões de deuses agrários. Quando a agricultura é introduzida nos vales dos grandes rios da humanidade uma nova forma de culto nasce, a partir da ligação com a terra e com as sementes dos vegetais. Se em sociedades de caçadores o grande ritual era aquele que se dirigia ao animal que iria ser caçado, nas sociedades agrárias, a semente das plantas era o grande símbolo da liturgia religiosa. Em sociedades de caçadores a aliança entre o mundo humano e o mundo natural se manifesta na idéia de que o animal ele se sacrifica pelo homem. Toda caça é, antes de tudo, uma vítima voluntária. A vida do animal será perpetuada na medida em que ele é digerido pela tribo e passa a viver no corpo e na alma daqueles que consomem sua carne. Nas sociedades agrárias esse processo se dá com a semente, que é enterrada e que renasce como uma nova planta. A morte e o renascimento são partes de um mesmo ciclo fundamental. Estar vivo e estar morto não são elementos de situações opostas mais aspectos de um mesmo processo. A morte da planta, assim como a morte do animal, é uma etapa fundamental para que a vida continue. A vida tem que continuar. Ela é senhora de nós e não nós senhores dela. Somos parte da vida. Elementos fundamentais de uma única e intensa expressão de força que perpassa o espaço-tempo por isso morremos e renascemos o tempo todo. Joseph Campbell chamou atenção para uma passagem dos escritos cristãos (se não me falha a memória são os Atos dos Apóstolos, mas não tenho muita certeza) em que Jesus canta e dança com seus apóstolos antes da crucificação. Como Shiva, Dionisio e tantos outros deuses dançarinos essa representação é muito poderosa e sua pedagogia é de uma intensidade gritante para aqueles que ainda não conseguiram aceitar o lugar em que se encontram no mundo. Somos partes decaidas do mundo. Entes, em um sentido metafísico. Pedaços do Ser lançados no aqui e no agora. Estamos no tempo. Precisamos aprender a aceitar as regras do tempo para encontrar nossa morada fora dele e por isso entender que a vida é um exercício de morrer e renascer quer como a semente dos velhos cultos agrários, ou a presa que se sacrifica pelo bem do caçador. Morremos e renascemos diversas vezes, abrindo e fechando os ciclos de nossas vidas quer seja através de metáforas poéticas ou mesmo na crua rudeza da dor que muitas vezes parece senhora de tudo. Aprender a dançar diante do sofrimento é um sinal supremo de vigor. Um índice poderoso de que, apesar de tudo, a vida se impõe.
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