Pablo Capistrano \| A árvore do Yoga
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A árvore do Yoga Imprimir E-mail

Geralmente quando as pessoas pensam em Yoga relacionam algumas palavras como “relaxamento”, “alongamento”, “calma”. A maioria pensa que Yoga é um tipo de ginástica e que um dos objetivos da prática é fazer perder peso, aliviar o stress, curar problemas de coluna ou melhorar a flexibilidade. Mas não é só isso.

Bellur Krishnamachar Sundararaja Iyengar nasceu em 1918 na Índia e teve uma infância pobre, marcada por doenças (malaria, tuberculose, febre tifóide). Aos 16 anos foi levado para aprender a arte do Yoga com Sri T. Krishnamacharia. Começou a oferecer seus serviços de mestre de Yoga em Pune, na margem ocidental do planalto do Decan. Naquele tempo (década de 1930), mesmo na terra de Gandhi o Yoga não era valorizado. Iyengar conta em seu livro que chegou a instruir práticas em aldeias do estado indiano de Maharashtra em troca de pão e um pouco de chá (apenas o suficiente para não morrer de fome). Em menos de um século, essa prática, derivada do tantrismo e do Sankya, que emergiu das camadas populares indianas como uma reação aos rituais ortodoxos da religião dos brâmanes, invadiu o ocidente e se transformou em mais um dos produtos a disposição do público pagador no imenso shopping center esotérico da nova era.

Mas o Yoga é muito mais do que uma expressão cultural da Índia, ou um tipo curioso de ginástica. As bases filosóficas da prática do Yoga remontam a um tempo impreciso entre 200 ac e 400 dc.  Nessa época, segundo a tradição, teria surgido um texto chamado Yoga Sutras, atribuído a um personagem misterioso chamado Patanjali.

Patanjali é um dos muitos heróis míticos que, a exemplo de Mitra e Cristo, são filhos de virgens e tem linhagem divina (no caso de Patanjali sua paternidade é atribuída ao deus Sol). Ele teria escrito três tratados, um de gramática (Mahabhasya), um sobre a medicina Ayurvedica (Sharaka Samhita) e outro sobre o Yoga.

Neste texto, Patanjali teria escrito: “agora vou falar sobre a consciência”.

Essa é a grande questão do Yoga.

Não se trata de uma prática física, de uma ginástica, ou de um modo de aliviar o stress. O Yoga é um substrato de filosofia prática, muito parecida com aquilo que os filósofos da velha Grécia, os místicos cristãos medievais ou os cabalistas da Espanha judaica buscavam praticar.

Segundo Iyengar, o Yoga pode ser visto como uma árvore.

Suas raízes seriam os cinco princípios morais que deveriam fundamentar a prática do adepto: a não violência, a veracidade, a abstenção da avareza, o controle do prazer sensorial e a busca por livrar-se do desejo e da ambição de possuir mais do que o necessário. Esses princípios éticos de ação fundamentam moralmente o adepto e se ligam de modo íntimo a muitas das prescrições morais da ética dita “ocidental”.

O tronco, que daria sustentação à prática seria as disposições internas do adepto e teria relação com a higiene, contentamento, ardor na prática, capacidade de auto-exame e de auto-entrega. Os galhos e as folhas da árvore seriam respectivamente os assanas e os pranayamas. As famosas posturas do Yoga (assanas) que ilustram as revistas especializadas e os programas de TV se ligam a dimensão mais visível da prática, mas  não constituem a totalidade do Yoga. As posturas psicofísicas integram o controle do corpo com a manipulação da energia corporal e da respiração (pranayamas). Essa dimensão do Hata Yoga é uma etapa necessária para a execução da técnica, mas não é suficiente. A casca que dá sustentação a toda árvore (seguindo a metáfora de Iyengar) é o pratyahara (a viagem interna dos sentidos). O controle dos sentidos é um dos requisitos fundamentais para que toda a prática se institua e para que a concentração (a seiva da árvore do Yoga) possa abrir caminho para um estado meditativo (a flor que brota nisso tudo).

Patanjali aponta, passo a passo, o processo de construção dessas etapas e de como uma prática de Yoga deveria ser encarada e exercida. Para que pudessem dar seus frutos, ou pelo menos o mais suculento deles, o Samadi (um equivalente na tradição Indu ao Nirvana Budista, ao Tikun cabalista ou a Graça dos cristãos), o adepto teria que seguir as pistas deixadas por Patanjali em seus Sutras.

O resultado de alguns anos (ou vidas se você preferir) de prática, no entender de Iyengar, é a integração de corpo, respiração, sentidos, mente e conhecimento à totalidade da existência.  

Estar conectado ao Ser, uma utopia mística, um dos projetos ontológicos mais ousados da humanidade, é um dos sentidos de se iniciar na busca do Yoga. Não importa o nome que você dê a isso, não importa a perspectiva a partir da qual você começa a sua caminhada. Oriental, ocidental, hindu, budista, cristão, ateu... tanto faz. O Yoga é, nas palavras de Iyengar, (citando Patanjali) um Sarvabhauma, ou seja, uma “cultura universal”. Basta deixar de lado a sua doutrina predileta, seguir o conselho de Walter Franco e manter a coluna ereta, a mente quieta, o coração tranquilo e seguir no caminho do Ser.

Pablo Capistrano
Escritor, professor de filosofia do IFRN
www.pablocapistrano.com.br

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