|
Quando soube da morte de Roosevelt Pimenta na última sexta feira lembrei na hora que na biblioteca da casa da minha mãe, na cidade jardim, haviam fotos do tempo em que ela e Roosevelt contracenavam nos palcos de Natal.
O Anjo Negro de Nelson Rodrigues, Joana D´arc de Paul Claudel, A Pena e a Lei de Ariano Suassuna, foram algumas das peças em que Roosevelt atuou. Elas estão lá, guardadas em fotos. Registros da vida de dois grupos de teatro potiguar TONUS (Teatro Novo Universitário) e Picadeiro Elenco e Repertório. Ambos atuaram por essas bandas entre 1970 e 1986 sob a direção de Carlos Furtado.
Muita gente sabe do trabalho de Roosevelt como coreografo e bailarino, mas pouca gente, especialmente os mais novos, se lembra que além de grande no universo da dança ele também era um ator extremamente talentoso, com uma presença cênica marcante e uma voz que enchia as salas de teatro. Minha mãe sempre me falou que Roosevelt era um daqueles atores extremamente generosos, que não tinha nenhum pudor em te levar junto na cena quando as coisas pareciam que não iam funcionar.
O engraçado é quando eu converso com gente que tem menos de 35 anos, mesmo os que trabalham com teatro, quase ninguém sabe do TONUS, de Roosevelt no palco, das experiências teatrais de vanguarda que se realizavam nesses litorais lá pelos anos setenta.
É como se todas aquelas histórias contadas em família, como se as fotos e as memórias do teatro, que se preservavam nas paredes da casa da minha mãe, fizessem parte de um mundo privado de memória, do qual apenas eu e mais alguns iniciados pudesse partilhar.
Talvez seja essa uma sina do teatro. Sua instantaneidade, sua vinculação com o fluxo do tempo, sua proximidade promiscua com a experiência da vida fragilizam seu lugar na memória dos povos. A poesia, as artes visuais, o cinema, até a música, têm como esteio fundamental a suspensão do tempo. O fluxo do mundo é interrompido em uma imagem pintada num quadro, em uma escultura, um rolo de filme ou no registro de uma gravação, feita em algum estúdio num dia de inverno.
O teatro não se contém. Ele se perde na falta de limites, no acontecimento do agora e vai se tornando devagar, um rasgo na memória dos que experimentaram seus prazeres, dos que vivenciaram suas misérias, dos que passaram pelos riscos de suas delícias.
Quando eu tinha uns 7 anos, em um tempo anterior a chegada dos videocassetes, o povo lá de casa se reuniu com alguns amigos para assistir uma projeção em Super 8 do filme “2001: uma odisseia no espaço”, de Stanley Kubrick. Lógico que eu dormi nos primeiros vinte minutos do filme, embalado pela música contagiante de Strauss e pelas imagens circulares de um Kubrick em absoluto estado de graça cinematográfica.
No final da sessão, já quase de madrugada, quando todos se preparavam para entrar nos seus carros e voltar para casa, Roosevelt olhou para o grupo e anunciou com uma seriedade solene, entrecortada por um leve odor de wiski que lhe acompanharia por toda a vida: “Eu sou Hal 9000!”.
Logo depois, diante do silêncio da plateia meio que estupefata com o vigor da interpretação e com a natureza desconcertante daquele estranho anúncio, Roosevelt desatou a rir. Uma gargalhada poderosa que, na minha imaginação infantil, parecia ter tomado conta da cúpula de estrelas que cercava o céu daquela madrugada de inverno em Natal.
Essa foi a imagem que Roosevelt deixou gravada na minha memória, tão real e evanescente quanto as fotos daquele teatro, que povoaram, por tantos anos, as paredes da casa de minha mãe.
Pablo Capistrano
Escritor, professor de filosofia do IFRN
www.pablocapistrano.com.br
|