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A Europa é um continente velho e decadente.
Antes que você, eurofilo militante, possa me trucidar com impropérios impublicáveis, gostaria de dizer que a frase aí de cima não é minha. Quem a pronunciou foi o pensador alemão Peter Sloterdijk: um europeu da gema.
Em um livro (traduzido para o português como: “Se a Europa Acordar”) Sloterdijk faz um diagnóstico interessante das pretensões de grandeza eurocêntrica. Sua tese parece ser a de que a Europa abdicou do protagonismo politico global, na medida em que permitiu que dois de suas mais radicais experiências de modernidade (o liberalismo inglês e o socialismo franco-alemão) dividissem o mundo durante o século XX, construindo um campo de batalha ideológico que rachou a humanidade por mais de setenta anos e deslocou o polo de poder político para além das fronteiras do continente.
A Europa assistiu o conflito dessas experiências e permitiu que o eixo geopolítico do globo se deslocasse de seu centro. Por sua passividade, ansiosa diante de seus próprios dilemas interiores, congelada em meio a saudade do império romano e de sua unidade nunca recuperada, traumatizada pelas duas grandes guerras e pela barbárie sinistra que se viu frutificar em seu solo, a Europa viu no século XX sua força de influência decair.
Se fosse um dos BRICS a dizer a frase que abre esse artigo, talvez soasse revanchismo de colonizado ou mesmo algum delírio multiculturalista terceiro mundista. Mas não. Ela vem de um pensador que vem do centro do velho mundo, que pensa seu continente e seus impasses com o olhar frio da razão, com a faca de ponta da filosofia acostumada a abrir o bucho das fantasias políticas mais sólidas.
Vendo o mundo parar diante da TV para assistir o casamento do herdeiro do trono da Inglaterra é que a gente percebe o quanto que a frase de Sloterdijk parece fazer sentido.
Aquela pompa, aquela circunstância, mais do que nunca, expõe o que sobrou daquele império em cujo território, o sol nunca se punha.
Se levarmos em consideração que a URSS foi uma experiência de fronteira e que, os EUA são um amalgama de culturas e tribos diversas, vamos perceber que é ali, na velha Inglaterra de Willian e Hary, de Guilherme o conquistador e de Harold (o rei saxão morto na batalha de Hastings) que a Europa guarda hoje as sobras de um tempo em que o mundo era guiado por seus modelos.
Nós, brasileiros (especialmente os intelectuais) padecemos de um certo fetiche eurofilo. Sonhamos com os gregos. Deliramos com as grandezas perdidas da Igreja Romana. Cultivamos a nostalgia do velho império dos césares. Dormimos com a cabeça em Versalhes e acordamos alucinados com a arte que ornamenta os palácios de Florença. Buscamos, afoitos, em cada pedaço velho de papel de batismo, um pezinho na nobreza portuguesa, para achar, no palácio Nacional de Sintra, lá na sala dos brasões, o desenho de nosso sobrenome. Um atestado qualquer que nos pudesse retirar dessa selva de beleza e caos e nos servir de passaporte para podermos retornar a nossa casa adormecida do outro lado do atlântico.
A monarquia britânica tem um papel fundamental para a Europa. Mesmo que o mundo não seja mais aquilo, mesmo que tudo já seja diferente e os senhores da terra falem outras línguas, tenham outros sotaques, ou cultivem outros gostos, mesmo assim, eles estão lá. Em suas carruagens, com seus uniformes militares, seus anéis de diamante e o peso de uma tradição que virou figura, símbolo, imagem perdida nas esquinas da história. Para um ocidente acostumado a sepultar o poder de seus reis, sem lhes tirar a majestade a realeza britânica é um ornamento essencial. Nem que seja só de enfeite, por um dia. Para inglês ver.
Pablo Capistrano
Escritor, professor de filosofia do IFRN
www.pablocapistrano.com.br
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