Pablo Capistrano \| A Carne é Fraca
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A Carne é Fraca Imprimir E-mail
Escrito por Pablo Capistrano   

A primeira música que eu ouvi da banda inglesa Radiohead foi Creep. Lembro que ela apareceu em uma fita cassete (já ouviu falar?) anexada à revista General (no começo dos noventa). Aquela era uma coletânea de bandas que estavam fazendo zoada no verão inglês de 1993. No meio de grupos como Cranberries, Breeders (banda da Kim Deal, ex-Pixies), Beasty Boys e do mundialmente famoso Pato Banto, havia Creep, do Radiohead. Confesso que achei a música muito bestinha (Para mim a melhor versão dela é a do clipe do Caco, o sapo do Mupets, que você pode assistir no youtube: http://br.youtube.com/watch?v=L1K8t3BtNaw&feature=related). Alguns anos depois, em uma das famosas festas de Natal na casa de Fernando Alves (vocalista da banda Jus Cause) ouvi The Bends (segundo disco do Radiohead). Então eu entendi que havia alguma coisa a mais naquela banda.

O ambiente sonoro era soturno, triste e melódico como só as bandas da Inglaterra sabem criar. Havia alguma distorção, na melhor tradição do J&MC e do My Bloody Valentine, mas não em excesso. Se a tristeza dos anos oitenta era seca, dura, claustrofóbica e suicida como um verso do Ian Curtis, a tristeza do Radiohead era suave e úmida, como num quadro simbolista. Mas eu ainda estava desconfiado. Só fui realmente dobrado pela indústria e induzido a comprar do CD quando vi o clipe da música Fake Plastic Trees.
Há uma coisa de infância solitária naquele clipe. O sujeito passando dentro de um carrinho de supermercado em meio a corredores e corredores infinitos, cercados de garrafas plásticas coloridas, enquanto pessoas aparecem e desaparecem em meio a um labirinto de produtos enlatados.  Aquele supermercado é uma maravilhosa metáfora para a nossa alma industrial, para nossa solidão embalada à vácuo e para a náusea que vem de um vazio estranho que embrulha os sentimentos desse mundo de consumo eterno e furioso. Curiosamente um dos indícios do colapso moral da nossa civilização pode se encontrar justamente na comida.

Boa parte das velhas regras religiosas se baseava em tabus alimentares. A famosa comida “carregada” que nossas avós sertanejas costumavam a bloquear em nossa mesa. O hinduísmo, o cristianismo, o judaísmo e até o candomblé, tem seus tabus alimentares. Na religião, a interdição do alimento tem uma base muito mais moral e cultural do que orgânica. Por exemplo, dos 613 mandamentos que se encontram na Troah judaica (o equivalente ao Pentateuco dos cristãos), muitas regras se dirigem para a relação do homem com Deus, outras do homem para com seu semelhante e algumas do homem para com o meio ambiente. A religião judaica construiu um poderoso sistema moral que implicava a responsabilidade social e ambiental. As regras de proibição da caça, o descanso do ano sabático, a obrigatoriedade de “aliviar a carga do seu próximo” fizeram com que o imperador romano Juliano exclamasse: “É vergonhoso ver que os nossos não dispõe dos recursos que lhe são devidos, ao passo que os judeus não tem mendigos, e os ímpios Gaileus alimentam, além deles, também os nossos”.

Comer para o judeu não é simples. Não basta comprar um Hambúrguer em um sebosão desses da vida, e o problema não é só a quantidade de gordura trans que você consome. Há uma demanda social e ambiental na comida. Há o sofrimento dos homens que são explorados e escravizados pelo trabalho miserável necessário para trazer aquela carne borrachuda, para junto daquele queijo gorduroso e daquele pão com gosto de isopor. Há o dano ambiental produzido na produção industrializada de alimentos que destroça a floresta, contamina o solo, e poluí o ar e ainda há o mandamento bíblico, puro e simples, que proíbe que se cozinhe: “o cabrito no leite da sua mãe”.
Comer, na religião judaica é um ato de afirmação moral, que implica não comungar com tudo aquilo que entra no seu corpo, porque aquilo que você consome também te transforma, te contamina e te modifica, assim como contribui muitas vezes para tornar o mundo um lugar pior de se viver. Alguns judeus observantes como o escritor Franz Kafka (por exemplo) eram vegetarianos convictos. Um dos grandes mestres do judaísmo contemporâneo o Rabino Chaim Zundel Maccoby, que pregava no East End em Londres em 1880, era tão convicto desse vegetarianismo que se recusava a usar sapatos de couro de animal, preferindo os de lona. Em 1896 Aaron H. Frankel, seguiu a linha doutrinária de diversos outros autores judeus e escreveu quatro folhetos traduzidos para o Iídiche (língua dos judeus azquenazitas) chamado “Teoria do Vegetarianismo” e ajudou a fundar uma associação vegetariana judaica.

Não se trata de uma simples defesa romântica dos direitos dos pobres bichinhos. A teoria judaica do vegetarianismo tem conotações bíblicas significativas e uma base teológica sólida inspirada na idéia de que o estado de decadência do homem tem relações com o escândalo biológico da predação de outras espécies animais. Negar esse escândalo é assumir uma postura moral pro ativa e diferenciar-se dos outros bichos. Essa é uma tarefa que nos humaniza e nos afasta do escândalo da violência natural.

Hoje, a indústria precisa de nossos desejos para mover seu capital, por isso ela tem de implodir a velha moral religiosa, que crias limites ao consumo. Não podemos selecionar a quantidade de desgraças que entra em nosso corpo, nem pensar no dano que produzimos para satisfazer a nossa vontade. Hoje, cada vez mais, vivemos no supermercado do clipe do Radiohead, perdidos entre aquelas prateleiras plásticas, longe de nossa humanidade e escravos daquilo que nos destrói.

 

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Site: www.pablocapistrano.com.br

 

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