| A verdade e o terror |
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Não gosto de emitir opinião no calor dos fatos. Não tenho habilidade de dar respostas muito rápidas aos desafios do mundo. Talvez seja realmente algum velho ranço de filósofo, que precisa pensar um bocadinho antes de emitir alguma opinião. Por isso me vem sempre essa sensação retardatária de antiguidade quando entro no mundo das redes sociais. Por mais acelerado que eu tente andar, não consigo seguir o ritmo com que as opiniões desfilam diante da tela do meu celular. É na pressa que o pensamento se dissolve. E é justamente dessa pressa que eu tento fugir. E foi exatamente para preservar o tempo vagaroso do meu pensamento que eu suspendi meu juízo diante das notícias desses massacres de verão na Noruega. Pelas redes sociais, muitos navegantes, sem titubear, enquadraram o norueguês assassino a partir de suas próprias fronteiras. Direitistas lembraram as bombas dos grupos de esquerda nos setenta. Esquerdistas gritaram histericamente: Nazista! Nazista! Crentes falaram da falta de Deus. Ateus culparam um suposto “fundamentalismo cristão” pelo massacre. É a pressa, amigo velho, a pressa. Não se deu tempo ao pensamento. Não se permitiu lançar sobre o fenômeno um facho de luz um pouco mais demorado. De fato, depois que o mundo começou a analisar com calma as mil e quinhentas páginas que Anders Behring Breivik havia postado na internet, outros aspectos do terror do norte começaram a surgir. Ao se afirmar cristão, o norueguês não estava fazendo uma profissão metafísica de fé. Não se tratava de um fundamentalismo teológico, de uma digressão de fanáticos ignorantes que buscam transportar a “iluminada e racional” civilização ocidental em direção algum tipo de medievalismo obscuro, como apregoaram apressadamente ateus militantes. Seu cristianismo é étnico e não metafísico. Não é sobre algum conceito de Deus que ele se volta, mas sobre os traços que determinam uma suposta identidade cultural europeia. Viu-se também que não estávamos diante de mais um distúrbio nacional socialista clássico, nos moldes do velho hitlerismo. Breivik não se apropria da ideia de raça do mesmo modo que Hitler se apropriou. Sua luta é cultural. Seu naco de nazismo aparece na defesa da pureza da cultura do ocidente europeu, ameaçada pelas ondas de orientalismo, que, se nos anos do holocausto vinham das sinagogas, agora vem das mesquitas. O grande inimigo do terror nórdico é o multiculturalismo, a miscigenação, que antes de ser racial é cultural, linguística, religiosa. A pressa dos militantes virtuais, não retrata apenas um descuido com os rigores do pensamento. Ela também mostra algo muito significativo sobre o terror. Amigo velho, nunca se esqueça disso, o terror é um meio. Nele, cabem todos os fins. Não existe ideologia, crença, fé, filosofia que não possa ser motor do terror. O grande aliado do terror é justamente a verdade, a mais fiel prostituta do poder. A verdade que nos cega, nos seduz, nos enfeitiça com sua substância narcótica. É preciso estar imerso no veneno da verdade para ser um agente do terror. Contra o terror, amigo velho, só cabe a lentidão do pensamento. A desconstrução das verdades que se postam como inexpugnáveis para vida dos homens. Enfraquecemos, nesse tempo de pressa. Nessa época em que o pensamento se dissolve em seus delírios de poder, se manifestando como veículo das verdades humanas, que, a despeito de particulares, circunstanciais, limitadas, se travestem das mais fatais seduções para nos empurrar em direção ao absoluto. Um absoluto que a despeito de sua pureza, sempre guarda algum cheiro de sangue, coalhado nas suas raízes.
Pablo Capistrano
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